Hetta na Lovers: o hardcore não é apenas um grito de catarse, é também um abraço coletivo

Hetta na Lovers: o hardcore não é apenas um grito de catarse, é também um abraço coletivo

| Dezembro 29, 2025 11:06 pm

Hetta na Lovers: o hardcore não é apenas um grito de catarse, é também um abraço coletivo

| Dezembro 29, 2025 11:06 pm

Na data portuense de apresentação do álbum de estreia, intitulado Acetate, os Hetta passaram pela sua nova “casa” – mais precisamente pelo espaço da Lovers & Lollypops, a editora que lançou o disco -, para protagonizar o habitual furacão de post-hardcore/screamo/noise que os define, mas agora com uma maior maturidade e mestria – o resultado inevitável do trabalho árduo de uma banda que insiste em lutar contra a estagnação para melhor testar os limites da sua fórmula.

O próprio local onde se encontravam beneficiou imenso a atuação, com a ausência de palco (havia apenas um tapete a marcar o spot) a fazer desta apresentação um potentíssimo manifesto de uma intimidade visceral.

É o caos como apoteose sonora, o berro volátil banhado num clima de união eufórica… Acima de tudo, o underground em toda a sua força gloriosa a ecoar numa casa completamente cheia – tanto de pessoas como de calor humano. A música pode ser “violenta”, mas a verdade é que lá dentro respirava-se um ambiente de diversão pacífica, uma troca de amor e energia completamente revigorante, saboreada com uma intensidade luminosa. Olhávamos à nossa volta e era impossível não sentirmos estar na presença de sucessores espirituais dos Fugazi (embora as rosas espalhadas pelo chão remetessem mais, curiosamente, para o cenário de palco dos Unwound): por outras palavras, uma banda que já é um símbolo incontornável da geração que marcou, e que tem tudo para ser ainda mais do que aquilo que já é. Afinal, no meio desta implacável descarga de impetuosidade caótica também se ouviu um tema como “Caught Again” – mais melódico e contemplativo sem nunca deixar de soar possante -, e é nesses momentos, ou na passagem mais contida e atmosférica de “Triple Tracy”, que visualizamos com clareza como os Hetta são uma máquina criativa em expansão.

Hetta

De resto, assistimos ao que já conhecemos bem, e do qual nunca nos cansamos: uma entrega genuína e irrepreensível, com o vocalista Alex Domingos a fazer crowdsurfing, a caminhar pela sala, a dar a mão a alguns elementos do público – a ser ele mesmo parte da audiência para a qual se encontrava a atuar… Porque no universo dos Hetta não há muros, há apenas pontes que se atravessam para fortalecer laços. É música “cuspida” como um desabafo veemente –  aquelas guitarras metodicamente agressivas, por vezes até a apontar para caminhos math-rock, só servem para pontuar melhor a exclamação sonora -, e que encontra na força de uma catarse coletiva a sua razão de ser.

Naquela que foi, muito possivelmente, a atuação mais longa (cerca de 45 minutos) que já testemunhamos por parte do quarteto do Montijo,  confirmamos que os novos temas resultam muitíssimo bem ao vivo (sobretudo “Plainclothes Man”, com o seu refrão orelhudo e absolutamente contagiante, ou “Wire Lashes”, onde as guitarras atacam com uma dissonância acutilante) e que a banda está claramente no seu período áureo. Mais do que uma promessa do presente, apresentam-se como a confirmação de um futuro risonho.

Hetta

Esse futuro, aliás, ficou bem evidente com a prestação dos Idle Hand, que assinaram aqui uma dose demolidora de um doom/sludge/stoner fulminante, música de guitarradas que movem montanhas e arrepiam a alma. A verdadeira definição de “jarda“, portanto, aqui servida com uma força descomunal e um volume estrondoso que nos deixou quase surdos, mas que ainda assim se revelou tão percetível quanto implacavelmente poderoso. Com a bandeira da Palestina bem visível no cenário de fundo, proporcionaram um ataque esplêndido e super apaixonado de uma riffalhada massiva, uma descarga de peso monolítico e “rasgado” que nos deixou completamente extasiados. Podemos mesmo dizer que sentimos cada segundo desta selvajaria enquanto o nosso corpo respondia com um headbanging eufórico, porque isto foi absolutamente notável .Sem dúvida, uma das melhores bandas do underground de peso nos dias de hoje. 

 

Texto: Jorge Alves

Fotografia: Francisca Pinto

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