Holocausto Canibal na Socorro: entre a glória do passado e a promessa do amanhã, sentimos o suor da euforia grind

Holocausto Canibal na Socorro: entre a glória do passado e a promessa do amanhã, sentimos o suor da euforia grind

| Janeiro 30, 2026 12:50 am

Holocausto Canibal na Socorro: entre a glória do passado e a promessa do amanhã, sentimos o suor da euforia grind

| Janeiro 30, 2026 12:50 am

Foi na passada sexta-feira que, perante uma sala bem cheia (duzentas almas a ignorar o frio para sentir o calor da festa, verdadeiramente louvável), os Holocausto Canibal voltaram à Socorro para o último concerto com o baterista Diogo P. – abandona a banda após dezassete anos de dedicação à causa, preparando-se para ser substituído, agora a tempo inteiro, por Jordi Lopes.

No entanto, o ambiente que aqui se viveu não foi efetivamente de tristeza – foi mesmo de celebração pujante proporcionada por um grupo que, ao vivo, é sempre uma máquina frenética de devastação sonora sublime, entre vozes “cuspidas” de forma cavernosa, um baixo bojudo e esmagador, guitarras cortantes e um Diogo a encerrar a sua passagem pelo grupo com uma prestação memorável. E é talvez isso que mais nos impressiona nestes veteranos com quase três décadas de carreira (o aniversário é já no próximo ano), essa entrega consistente e irrepreensível, a sensação de catarse libertadora que define cada uma das suas apresentações. Nota-se claramente um sentimento comunitário nas atuações do coletivo, uma ligação profunda e visível a uma audiência que cada vez mais atravessa gerações (vemos fãs de longa data mas também malta muito jovem, numa das renovações de público mais saudáveis da atual cena metaleira em Portugal), e que dá origem a concertos que mais parecem “missas” de uma brutalidade extrema implacável; Se há banda que dá constantemente tudo, juntamente com o seu público, é esta.

Mas para além dessa união aparentemente inquebrável, e de toda a descarga feroz que nos pune os tímpanos enquanto renova a alma, o que também sobressai é o requinte das composições; tudo é feito com uma inteligência absolutamente notável, numa descarga de bangers recheados de um groove pesadão e irresistível, daquele que nos faz querer abanar a cabeça para sentir bem na pele estas malhas avassaladoras que parecem ganhar vida própria. O groove é palpável, penetra-nos o corpo, consome-nos o espírito, e exige o headbanging; obedecemos sem questionar, pois a ordem é um desejo. Ritual de devastação que nos purifica, num banho de grind e suor.

No fundo, não houve aqui nada de novo, mas assistimos a mais uma bela atuação de uma banda que permanece absolutamente relevante, que se consegue manter sempre fresca e simultaneamente fiel às suas origens, e que nesta noite fechou um capítulo da sua existência enquanto já vislumbrava a escrita do próximo. Foi um concerto de despedida e transição, e por isso claramente especial, mas, no final, a sensação com que ficamos é que a emoção seria a mesma em qualquer outra noite do calendário. Basta haver paixão, basta o povo aparecer (e aqui até convidados de luxo havia na audiência, nomeadamente os britânicos Basement Torture Killings, com quem os Holocausto Canibal já atuaram várias vezes, incluindo em outubro no Maus Hábitos), que a magia imediatamente se instala. In Grind we trust!

Um pouco antes, os Capela Mortuária subiram ao palco para aquecer a noite, e a verdade é que a chama daquele metal old school com alto feeling punk/hardcore ardeu com uma força notória. Descrevem o som que fazem como “thrash metal fodido do poço”, mas nós escolhemos antes categorizá-lo como thrash da boa onda, da diversão jovial descomprometida e, acima de tudo, feito com uma garra bem honesta e uma energia altamente invejável (quando os próprios Holocausto elogiam o concerto em palco, isso já diz tudo). Com um espírito rebelde e uma fórmula bem “rasgada” e acelerada – ali a fazer lembrar os Anthrax de antigamente num formato mais agressivo, ou até bandas como os Nuclear Assault ou Kreator da era Pleasure to Kill -, assinaram uma atuação altamente satisfatória e entusiasmante, com destaque para a impressionante prestação de Jordi na bateria (sim, o mesmo Jordi que agora se juntou a 100% aos Holocausto Canibal) e para a Maria no baixo, instrumentista talentosa que também toca nos Nihility e nas Queimada. No final, e com uma bela cover da “Troops of Doom” dos Sepultura pelo meio, deixaram-nos com imensa vontade de os rever e reforçaram a ideia de que o metal nacional é uma cena fértil e vital, com muito boa coisa que merece ser escutada. Enfim, é de mais eventos destes, totalmente dedicados à divulgação do underground nacional e internacional, que a cidade precisa para que o movimento continue a crescer. Nesse sentido, urge louvar o incansável trabalho desenvolvido pela Larvae em prol da comunidade do metal, e esperar que permaneçam ativos durante muito mais tempo.

 

Texto: Jorge Alves

 

 

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