Melhores do Ano 2025: Revelações

Melhores do Ano 2025: Revelações

| Janeiro 15, 2026 12:03 am

Melhores do Ano 2025: Revelações

| Janeiro 15, 2026 12:03 am

Em 2025, a procura de talento nacional revelou-se especialmente frutífera. Foi um ano em que os jovens artistas portugueses demonstraram uma iniciativa inabalável e uma criatividade fervilhante. O espírito DIY esteve na ordem do dia: emoções à flor da pele, mordacidade, escrita afiada e confissões cortantes desenharam um retrato cru do sentimento de desamparo e desânimo provocado pelo ritmo exaustivo do mundo moderno e pelas frustrações de uma vida comum.

Tédio FC, YUNG XALANA, Lesma e aMijas deram corpo e voz a esse mal-estar latente. Dançámos ao som do storytelling disco-house de Femme Falafel e mergulhámos no hyperpop e drum’n’bass de IBSXJAUR. O peso e a ansiedade de uma sociedade cada vez mais desigual ecoaram nas propostas de Mangualde, Ideal Victim e Trasgo, enquanto Henrique Tomé e Fourward trouxeram de volta a delicadeza, a empatia e a introspeção. À margem, o experimentalismo eletrónico e ritualista de Amuleto Apotropaico afirmou-se como o gesto mais singular e imprevisível do ano.

Sem fronteiras estéticas ou linguísticas, reunimos 12 projetos que apresentaram em 2025 a sua primeira coleção de canções — seja em EP, álbum ou mixtape — e cujas estreias deixaram uma impressão duradoura na equipa da Threshold.

aMijas

As aMijas são um projeto formado em Braga em 2022, com origem nas catacumbas do Centro Comercial Galécia. A banda cruza punk e rock com instrumentos de sopro, texturas electrónicas e duas vozes em contraste, construindo um som energético e deliberadamente descomprometido. Recusando enquadramentos rígidos, deixam-se também influenciar pelo pimba e pela pop. As letras partem do quotidiano e abordam temas sérios com humor e ironia, mantendo um equilíbrio entre crítica e irreverência.

O álbum de estreia homónimo, editado este ano pela Favela Discos, estrutura-se como uma narrativa difusa entre o bar e o regresso a casa, marcada pelo excesso, pela ressaca e pela euforia. Composto por oito temas originais e uma versão de “Inútil”, dos Vai-te Foder, o disco apresenta um rock fluido e sem concessões, onde convivem diferentes texturas e intensidades. O resultado é um retrato cru e direto de uma banda interessada em provocar movimento na cena local, mais do que em acomodar-se a expetativas ou fórmulas estabelecidas. David Madeira

Amuleto Apotropaico

Uma estreia discográfica que inaugura também o catálogo de uma nova editora, a Perf. Duas entidades de origens distintas, vinculadas por uma cidade (o Porto) e um ímpeto em comum: trilhar novas rotas sonoras. É isso que a dupla de António Feiteira (percussão, eletrónica) e Francisco Oliveira (guitarra, flauta, eletrónica) se comprometem a fazer no seu álbum de estreia homónimo, Amuleto Apotropaico, composto a partir de gravações de concertos do duo. Música sem mapa óbvio, irrequieta e inclassificável, que confia nas tradições ibéricas de expiação para conceber novos mundos velhos de fricção, erro e liberdade. Filipe Costa 

Femme Falafel

Ao longo destes últimos anos, Raquel Pimpão tem sido alvo de clamor no circuito musical português com o seu projecto a solo Femme Falafel. Com o seu tão aguardado registo Dói-Dói Proibido, Femme Falafel corresponde ao hype, por sua vez nutrido pelo facto da artista ser capaz de demonstrar uma virtude para o storytelling peculiar. Esse é demonstrado em pleno em faixas como os singles “Romance Feudal” e “Depressão”, que servem de showcase para a sua afinidade indie pop com inclinação para as sonoridades disco-house, e que são por sua vez rematadas com a sua perspectiva mordaz acerca de situações que são de outro modo completamente corriqueiras, mas familiares. Ruben Leite 

Fourward

Fourward é um quarteto de Braga composto por José João Viana (guitarra elétrica), Gonçalo Cravinho Lopes (baixo elétrico e contrabaixo), Simão Duque (trompete) e Tomás Alvarenga (sintetizadores e bateria). Tomás e Gonçalo são amigos de longa data e tocam juntos desde os 13 anos, tendo sido ambos fundadores dos OCENPSIEA. Foi a partir de sessões de improvisação em bares e clubes da cidade que os Fourward se encontraram. Vencedores do Concurso Talentos CoolJazz by Smooth FM, foram convidados a atuar no festival CoolJazz em Cascais, em 2023.

Afirmam-se como uma das promessas da nova geração do jazz nacional, reinventando-o através de uma fusão eclética de influências eruditas e urbanas. O álbum de estreia, Freedom, gravado com o apoio do Gnration e editado em julho, é uma verdadeira ode à liberdade — não apenas enquanto conceito, mas como experiência vivida e partilhada através da música. Freedom reflete a identidade singular de cada elemento do grupo, dando origem a uma linguagem comum que cruza o jazz com o rock, hip-hop, música eletrónica e experimental, folk, R&B e soul. Rui Gameiro 

Henrique Tomé

Henrique Tomé é um músico, produtor e agente cultural natural do Porto. Iniciou o seu percurso como baixista e compositor nos projetos Balter Youth, Silentide e Vitória Vermelho, e lançou em novembro o seu primeiro álbum a solo, Thin Ice. Editado pela portuense Biruta Records, o disco assume a forma de um drama conceptual dividido em dois atos. Thin Ice constrói-se como uma narrativa delicada sobre a fragilidade, revelada de forma gradual. A perda, o desaparecimento e a impossibilidade de substituir aquilo que já foi atravessam todo o álbum, que ganha profundidade graças à multiplicidade de músicos e instrumentos envolvidos — um exemplo claro de como o todo pode ser maior do que a soma das partes.

O processo de composição foi coletivo, envolvendo o próprio (voz, guitarra, sintetizadores e baixo), Gabriel Valente (bateria) e João Freitas (guitarra, piano, sintetizador, órgão e vozes de apoio), que participaram também na produção e gravação. Entre os traços mais marcantes de Thin Ice destacam-se os inícios lentos e progressivos, que evocam uma espécie de calma antes da tempestade. Faixas como “Rope”, “A Place We Can’t Be Seen” e “Thin Ice, Pt. 2” introduzem momentos de maior esperança, quebrando a atmosfera inicial mais fria. “A Place We Can’t Be Seen” surge como uma promessa de superação, de saída do próprio lugar em busca de segurança, enquanto “Thin Ice, Pt. 2” afirma que existe sempre uma alternativa. Margarida Pereira 

IBSXJAUR

O duo formado pela cantora portuguesa JAUR e pelo produtor francês de música eletrónica INFRABASSESATURE tem tomado de assalto o panorama musical português, graças ao seu projeto conjunto IBSXJAUR, que lançou em 2025 o seu primeiro registo SANITY. O conceito dos IBSXJAUR revolve ao redor de criar uma identidade sonora, que aborda o sentimento de desamparo e desânimo causado pelo ritmo exaustivo do mundo moderno, por sua vez adaptado a uma sonoridade mais energética e vibrante enraizada no techno, no hyperpop e no drum’n’bass. Músicas como “UP!”, “DANCING STAR” e “ECHO” mostram-se como pretextos convincentes para lidar com as agruras do dia-a-dia com um pézinho irrequieto na pista de dança. Ruben Leite

Ideal Victim

A banda portuense Ideal Victim é um exemplo sucinto de como se abana o panorama underground português sem ceder na sua garra, como demonstrado no seu registo Rage Letters lançado pela Lovers & Lollipops. Nesse álbum, os Ideal Victim apresentam um cruzamento de fúria elétrica do punk hardcore com laivos psicadélicos reminiscentes de géneros como o rockabilly e o surf rock, sem nunca comprometer o seu sentido de urgência e de provocação contra uma sociedade cada vez mais desigual e enraizada no patriarcado. Tal espírito de intransigência pura e dura ainda fica mais amplificado nos seus concertos, graças a uma combinação de vocais raivosos e instrumentação devastadora e atmosférica. Ruben Leite 

Lesma

Baseadas entre Sintra e a Margem Sul, as Lesma lançaram na primavera passada o seu LP de estreia É Mentira, com chancela da Saliva Diva. Antecedido pelo lançamento dos singles “Barreiro”, o tema mais longo do disco e uma ode ao sentimento de pertença, e “Homem”, uma balada de isolamento social, o disco revela, logo à primeira audição, letras depuradas, ora cantadas, ora faladas, desde um lugar que é (quase) sempre pessoal. E se nos ficarmos por ai e pela press release do Bandcamp da sua editora, na qual lemos que elas, a Leonor Casimiro (guitarra e voz), a Beatriz Sobralinho (bateria e voz) e a Rita Mira (baixo) “fazem música para as pessoas dançarem, cantarem e partirem tudo até mais não”, somos facilmente induzidos no erro de acreditar que a isso se resume a sua sonoridade. Mas talvez isto seja uma mentira.

De resto, estamos perante um jovem trio feminino que gravou um disco rock, com mais ou menos 27 minutos, por isso é fácil colar-lhes o rótulo de banda riot grrrl punk. E em bom rigor, nos arranjos mais expansivos, nomeadamente nos temas “Eu sou uma (colher)” e “Heroina”, escutamos ecos dos momentos de acalmia das Bikini Kill e das Raincoats, e nos mais explosivos – a saber em “Maria” e “Homem”- do músculo das L7 e das Babes in Toyland.

Uma audição mais atenta revela nos momentos instrumentais de “Dominante Cona”, mas sobretudo na “Breakdown”, uma inspiração na cadência e nos sofisticados arranjos ritmicos de uns Minutemen, e na “Barreiro”, de uma narração musicada à laia dos Death, banda de proto-punk de Detroit – baluarte da indústria nos EUA, e depois, da sua desindustrialização… isto faz-vos lembrar alguma outra cidade? E será que isto é coincidência cósmica, ou um apontamento deliberado?

O júri ainda não chegou a consensos, por isso, temos de esperar pela próxima cartada das Lesma para perceber se este avanço foi o seu all-in ou se estamos perante um dos (vários) trunfos que têm na manga para nós. Por ora, penso que esta jogada é suficiente para as sentar na mesma mesa que as Cavala e as Amijas, bandas que celebram o punk e nos lembram que este não foi inventado por Inglaterra, por Portugal, e tampouco pelo Barreiro, mas sim pelas raparigas. E isso é porque só elas podem (e devem) reclamar. Edu Silva 

Mangualde

Época de Caça chegou em setembro e é o primeiro manifesto dos Mangualde, trio independente do Porto. Formados poucos meses antes por João Gomes no baixo (substituído por Domi após a gravação de Época de Caça), Jorge Antunes (J/A e Ekcetera) na voz e guitarra, e António Machado na bateria, definem-se com ironia como os “Converge com ADHD”.

Ao longo de quatro canções a banda assume sem pudor as suas influências de pós-hardcore, math e noise rock, visíveis nas melodias ansiosas e caóticas, sustentadas por letras cortantes, uma atitude misantrópica e pessimista. “Pinto da Costa” destaca-se como um dos exemplos mais claros dessa identidade sonora. Produzido por Rui Santos (Bug Snapper), Época de Caça surge como o prenúncio de um futuro auspicioso, que parece mais perto do nunca – já se encontram a trabalhar no primeiro LP, com algumas dessas novas canções a ganharem forma ao vivo. Rui Gameiro 

tédio fc

Os tédio fc são uma jovem banda que só este ano começou a dar os primeiros acordes ao vivo. A sua sonoridade evoca uma veia reminiscente da rockalhada alternativa dos anos 90, particularmente da onda grunge, com as guitarras distorcidas e letras marcadas pela inquietude, suplementada por uma eletrónica assente em texturas sintéticas e apocalípticas. Em abril, chegou o seu registo de estreia, entrada a medo, um autêntico documento DIY, de estética despojada e sonoridade sincera, composto por cinco faixas. Ao vivo, o potencial dos tédio fc manifesta-se sobretudo em músicas como “recibos verdes”, “pobre menino”, ou mesmo “estudo do meio”, esta última com a participação em estúdio do artista brasileiro MONCHMONCH. Ruben Leite 

TRASGO

Durante quase dois anos de concertos ocasionais, os TRASGO foram angariando um certo número de fãs e um seguimento que se traduzia em salas bem compostas aquando das suas apresentações ao vivo, nomeadamente na cidade do Porto. Já ansiávamos o adivinhado álbum de estreia quando foi finalmente anunciado e, pouco depois, editado de forma independente no final do ano passado. O disco homónimo contém 8 faixas, já regularmente tocadas em concerto, e é dotado de toda a explosividade e pujança que o sexteto portuense tem vindo a demonstrar ao vivo.

“Calado”, “Centopeia” e “Senhor Guarda” são alguns dos clássicos que já cantávamos na nossa cabeça e que ultimamente passamos a ouvir em loop dentro e fora de casa. Riffs pesados, ritmos incessantes, ruídos loucos de saxofone e eletrónica, performances vocais cheias de força e intensidade unem-se num noise rock ruidoso que não conseguimos evitar comparar aos Swans – mas que não tem comparação possível no panorama nacional. Os TRASGO estreiam-se nos lançamentos em grande, com um álbum que os solidifica como uma das bandas emergentes mais impactantes dos últimos anos. Um disco para toda a família e para quem gosta de barulho, tal como os TRASGO gostam de o fazer. Rui Santos 

Yung Xalana

Yung Xalana é o alter-ego artístico de Lourenço Dias, cantor e guitarrista com passado nos já extintos MEIA/FÉ e, ainda antes disso, nos Panado. Acompanhado por Guilherme Almeida (Guilhermenz) na guitarra, Lourenço Abecassis no baixo e Miguel Costa (Co$tanza) na bateria, editou entre abril e maio os seus primeiros trabalhos de estúdio: p4ss4r m4l e RIP Xalana. Assumidamente lo-fi, p4ss4r m4l estava inicialmente pensado como estreia de Meia/Fé. No entanto, após a separação dos fundadores e cerca de um ano depois das gravações, apenas Lourenço continuava a identificar-se com as canções. A solução foi simples: editar, em nome próprio, os três temas que tinha composto.

Já em RIP Xalana, produzido por Abras e Leonardo Bindilatti, somos colocados na fila da frente de um mundo que deixou de fazer sentido – lugar dominado pela apatia, onde se expõem as feridas e frustrações de uma vida comum. “Estava a tentar agarrar-me à vida, de alguma maneira”, conta Lourenço, que compôs estas canções num período marcado pela depressão e burnout, enquanto trabalhava como produtor na CMTV e tentava juntar os pedaços de um coração partido. O resultado é cru e frontal, sem medo das consequências: jarda brutal, verbo afiado e confissões cortantes em temas como “Beto no Desterro” e “Fomos quase”. Rui Gameiro 

Artwork: Filipe Costa

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