Reportagem: Milhões de Festa – “Tem derretido as fronteiras nestes últimos 10 anos e continuará por mais 10, 20 anos. Com toda a certeza, a este passo”

Reportagem: Milhões de Festa – “Tem derretido as fronteiras nestes últimos 10 anos e continuará por mais 10, 20 anos. Com toda a certeza, a este passo”

| Julho 30, 2017 4:30 pm

Reportagem: Milhões de Festa – “Tem derretido as fronteiras nestes últimos 10 anos e continuará por mais 10, 20 anos. Com toda a certeza, a este passo”

| Julho 30, 2017 4:30 pm

Por onde começar e onde acabar após mais uma edição do festival que nos garantiu o #festãomínimo e teve mais que isso?


Tem derretido as fronteiras nestes últimos 10 anos e continuará por mais 10, 20 anos. Com toda a certeza, a este passo, o pré-adolescente Milhões de Festa, criado sob o signo das variantes doom, stoner e psych rock e ainda em muita world music e dub, continuará a dar tudo durante todos os anos que vierem.

Adiante.



Dia 0



A nossa viagem até ao festão começa com 8 horas impossíveis dentro de um autocarro que desembocam numa estação de expressos que mais parecia um faroeste suburbano, que por sua vez resultaria numa boleia de táxi até chegarmos aos Mercado Municipal de Barcelos, local esse onde actuariam os filhos da terra Ensemble Insano

Ensemble Insano

Este ano a mega banda ou mega conjunto ou mega família, porque este ano mais do que nunca existiram tantas bandas que mostraram que se ultrapassa o ser profissional que está a desempenhar um papel, que é o de tocar, e nos mostram que existe cumplicidade entre todos os membros da banda. Ensemble Insano foi o começo do turbilhão que iria ser o Milhões de Festa, uma mistura de kraut com psychedelic rock e tudo o que muitos elementos que Barcelos deu ao país puderam oferecer.


O primeiro dia, chamado dia 0, é o dia em que está tudo a conspirar quais os concertos que farão o Milhões e que daqui a uns anos ainda serão falados.

À cabeça estavam Live Low, que tivemos tempo de observar apenas o fim, Enablers que deram um show de como tocar como os Slint e recitar poemas como Nick Cave, com um vocalista sempre comunicativo a fazer dedicatórias a cada música que se iniciava e a tentar quebrar o gelo que existe sempre nos primeiros instantes de concerto.

Todas as letras em Enablers contavam uma história que nos poderia passar à frente dos olhos ou mesmo acontecer connosco, visto serem acontecimentos que podem desenrolar-se com cada um de nós no nosso quotidiano. Uma banda com todos os elementos fortíssimos, um baixo sempre presente a acompanhar uma bateria monótona que se fazia sentir por todos com o seu vocalista.

O concerto acabou e já se começava a sentir o frio das noites em Barcelos, acompanhado pelas jams que variavam entre o ambiente e o experimental da Favela Discos, que se tem revelado um dos projectos mais interessantes que se pode acompanhar actualmente em Portugal.

Em seguida tocaram o duo Cigarra & Birdzzie, composto por um brasileiro e um português, explorarando a música da América Latina de maneira a pôr todos os que estavam presentes a dançar. Dito e feito, cumbia durante todo o concerto, o qual fez valer a noite pelo facto de surpreender quem não esperava muito de um colectivo pouco conhecido. É isto o que o Milhões de Festa costuma fazer, dar a conhecer, o derreter fronteiras será sempre mostrar o que há para além do nosso e o que de bom se faz lá fora e mesmo cá dentro onde existem várias fronteiras ainda a ser derretidas.

Após este concerto surgem os Stone Dead, a banda de Alcobaça, 100% portuguesa, a tocar muitas músicas do novo álbum Good Boys, um dos álbuns portugueses mais aclamados do último ano. Apesar disso, a atuação da banda foi ruídosa, crua e sem muito mais a apontar do que um garage rock a frequências elevadíssimas com muitas influências de Beatles.

Stone Dead

A noite já se fazia longa quando os Stone Dead deixaram o palco que estava a ser preparado para o sírio que veio a Portugal sem muito nas mãos a não ser a sua case. Sem saber nada de português ou inglês, Rizan Said, antigo teclista de Omar Souleyman, chegou a Barcelos como o King of The Keyboards. Sem grandes apresentações todos se aglomeraram junto ao palco para a que ia ser a primeira grande “gessada” da noite.


Foi O Concerto da noite a par da actuação que iria suceder o sírio, que tocava incessantemente para gosto e delírio de quem observava. De tudo um pouco fez Rizan para alegrar a malta, chegando até a tocar músicas em que colaborou com Omar Souleyman ou mesmo Acid Arab. Podemos mesmo ser todos Síria após este concerto, visto ser um dos conflitos periféricos existentes na nossa civilização. O Rei já esteve em Barcelos a mostrar o ar de sua graça e nós adorámos.

Rizan Said

E para acabar a noite em beleza, o regresso de um filho que o Milhões viu crescer: Pigs Pigs Pigs Pigs Pigs Pigs Pigs, ou Piiiiiiigs ou “Pigs vezes sete”, como se ouviu ao longo da noite para abreviar a repetição de um nome que às tantas já seria complicado pronunciar. Foi outro dos grandes shows do dia “0”, tendo em destaque o seu vocalista que a par de danças em torno do palco, tinha uma postura semelhante à de Iggy Pop. Um concerto em que o som estava tão alto que nos recordou de comprar uns auditivos para aguentar a carga que foi o concerto de “pigs vezes 7”. Este ano nem a polícia se importou com o barulho.

     

Pigs Pigs Pigs Pigs Pigs Pigs Pigs
Para acabar a noite, o já conhecido conjunto de “DJs da Casa”, a fazerem o prolongamento da noite que viria a acabar mais tarde.

Em suma, o dia “0” é apenas 0 de nome, pela potência de bandas e géneros postos em provas no dia 20 de julho. Podemos dizer que o dia 1 foi mesmo no dia 20 graças à força que foi mostrada por bandas como Stone DeadPigs Pigs Pigs Pigs Pigs Pigs Pigs e com artistas como Rizan Said, que nos fez delirar e suar numa noite que aparentava ser fria.


Milhões de Festa 2017 - Dia 0




Dia 1



O primeiro dia despertou com o cantar de galo e com a habitual conversa e passagem de música entre acampamentos que pareciam não querer descansar. Este dia seria composto já pelo amado palco Piscina, excelente para o dia que estava devido ao muito calor que se fazia sentir.

As bandas que interessavam ver eram então Orchestre of Spheres e Mehmet Aslan mas, decidi aproveitar para mergulhar e sentir o som bem dentro da água quando actuavam ainda Lavoisier e Barrio Lindo, DJ já conhecido em Barcelos pela sua cumbia que não deixa ninguém indiferente. Foi um concerto interessante visto ser a junção de DJing e música muito ligada à Tropicália, que surgiu no Brasil com conjuntos como Novos Baianos ou mesmo com Caetano Veloso.

De seguida surgiu GPU Panic + Shake It Machine, um concerto em que cada música encaixaria perfeitamente num filme de Stanley Kubrick, em que o espaço da acção seria o deserto e uma nave espacial aterrava em busca de vida. Com bastantes semelhanças a Jean Michel Jarre, Mike Oldfield entre outros artistas de rock progressivo e dos primórdios da música electrónica, GPU Panic + Shake It Machine conseguiram surpreender a audiência que tanto parecia estar dentro da piscina a aproveitar o sistema de som como no relvado.



A partir daí foi o corropio total, estive entre Taina e Piscina sempre a correr, dum lado para o outro. Vi TAU, uma viagem ancestral com um guitarrista que avisou o público presente que Redbull matava e era tóxico e que drogas podiam ser consumidas à vontade. Um concerto em que o que se pode retirar é: cada um dos dois elementos poderia ter um projecto a solo graças à forte personalidade apresentaram no Palco Taina. Rock psicadélico no seu sentido mais puro, exploração de texturas musicais, parecia que tínhamos viajado até uma comunidade hippie e estávamos a aprender a tocar com TAU.

Vi também um pouco de Orchestre of Spheres e isso bastou. Isto porque para além da indumentária que apresentavam, parecida aos filmes de ficção científica, a banda apresentou um repertório fortíssimo que fez a enchente da tarde na piscina. Mas o que interessava era mesmo Blown Out, que seria a banda revelação do festival deste ano, assim como tinha previsto e comparado com My Expansive Awarness, presentes no Taina o ano passado.


Orchestre of Spheres
Foi um concerto arrebatador, com jams infindáveis. Tocavam sempre enquadrados, pareciam peças dum jogo de xadrez, duas torres na guitarra e no baixo e um cavalo na bateria, sempre a martelar forte e a mandar vibes doom e stoner rock para a audiência que já se fazia sentir no Taina. Valeu a pena esperar até julho para ver Blown Out a fazerem jus ao seu nome, rebentaram os tímpanos a todos os presentes.



A correria iria continuar. Quando cheguei ao palco da Piscina já Mehmet Aslan actuava e o público abanava o corpo. Ninguém conseguia parar, o DJ conseguiu agarrar no público que tanto esperou pela chegada do tão aguardado Mehmet. “Mechanical Turk” foi a malha do concerto, que me fez abandonar a piscina satisfeito.


Mehmet Aslan

Fui atestar ao Taina e já tocavam os Systemic Violence, um punk incendiário, anti-sistema, corrosivo e que fazia frente a qualquer força que os tentasse enfrentar. Deu para sentir assim ao longe o mosh e as letras sobre a “bófia” e sobre “muitas merdas que acontecem na vida”.



Systemic Violence

Após este concerto segui até ao campismo para preparar a noite que iria ser forte com FaUSt e GNOD, banda já conhecida em Barcelos, e ainda com o DJ Gaslamp Killer no palco principal. Comecei por ver o que se passava no palco principal quando cheguei. Já actuava a mega banda de Alvalade, Cuca Monga, que fez música de ambiente para quem ia jantando, não conseguindo obter muita aderência do público que ou se ia juntando ou estava a jantar.


A seguir surge um dos momentos mais altos da noite no Palco Lovers &Lollypops, um dos concertos que vai marcar o Milhões de Festa pela sua aposta na World Music como ela é, sem fronteiras e com a capacidade de mostrar mais mundo ao Mundo.

Decorem este nome nas vossas cabeças: Ifriqiyya Électrique, ou seja, Itália com a super baixista de Putan Club, banda que tive já a oportunidade ver ao vivo algumas vezes e aprender a apreciar visto ser uma banda com um conceito muito diferente; França com o guitarrista de Putan Club, sendo África, Turquia e Tunísia os restantes elementos. Uma família muito bem constituída, não fosse esta noite a que considerei a noite das famílias musicais, tivemos Cuca Monga que são uma família portuguesa, Ifriqiyya Électrique que seriam a família mais humilde que tive oportunidade de ver este ano e ainda FaUSt e GNOD, que fizeram um belo dum concerto que mais à frente falarei.

Mas adiante, explicar o porquê de ter sido um dos momentos altos da noite e um dos concertos que marcará decerto o Milhões de Festa: deixaram em transe com o seu trance tribal, puxando os galões de Putan Club para algo ainda mais agressivo, mais industrial e ainda marcado pela cumplicidade entre os elementos da banda e público, que se mostrou sempre pronto para mais música e manter o seu “ritual” em continuidade.

World music no estado puro, feita a partir do subúrbio, de quem veio com o que sabia fazer musicalmente e com a força do seu trabalho. Ainda se pediu encore mas infelizmente não foi concedido. 

Setlist:
Laa Ia illa Allah
Qaadrii- Salaam Alaik- Massarh
Mawwel
Zuru el Haadi- El Maduulaa-Maaluuma
Stombali—Baba ‘Alaia
Annabi Moham- Laa Ia illa Allah- Deg el Bendir
Lavo- Baba Marzug- Sidi Saad-Allah
Arrah arrah abbaina- Bahari- Tenouiba
Sidriiya

Fomos acompanhado a banda até ao Palco Milhões onde se esperava fervorosamente e ansiosamente o conjunto alemão FaUSt com GNOD. As betoneiras estavam prontas e só faltava começar o show.

Show esse que parece nem começa. A família FaUSt & GNOD parecia estar a afinar os instrumentos mas o concerto já tinha começado. Puro improviso. Um concerto que mais parecia uma obra de arte que um artista como Dalí ou André Breton fariam dado o cariz surrealista a que estávamos presentes. Aliaram a actuação à representação, existindo um elemento a movimentar-se em torno do palco, e bailarinas que utilizavam manequins de lojas de roupa como indumentária. Foi uma “trip” incrível, até chegar uma senhora a varrer o chão do palco.

Até aí foi sempre puro improviso, uma obra de arte a gravar na cabeça.

Do nada começam a chover pedras para cima do público, atiradas pelo vocalista da banda que entoava palavras de incentivo à revolução, de inconformismo e luta contra o sistema violador e castrador das liberdades do povo que as merece. Também do nada surge um baterista (mais parecia saído dum filme como o “Senhor dos Anéis” dada a sua altura assustadora), que até ao momento estava no seu “apartamento” ao lado do baterista de GNOD, fazendo sequências brutais de bateria. Começa a mistura de pedras nas betoneiras que começam também a ser utilizadas como instrumento de percussão.

O puro improviso seguiu-se quando se utilizaram para percussão barris de gasolina, massacrados pelos elementos da banda e mais tarde pelo público que se apoderou do barril e foi acompanhando a banda enquanto esta continuava a tocar.

Daí este ser o concerto que vai marcar o Milhões até termos filhos. A oportunidade de vermos ao vivo as lendas do kraut alemão FaUSt com uma banda actual de krautrock como os GNOD – basta ouvir o último álbum da banda Just Say No To The Psycho Right-wing Capitalist Fascist Industrial Death Machine, um álbum de crítica ao actual sistema político inglês que parece cada vez mais assemelhar-se aos anos da “Dama de Ferro”.

A viagem espacial com FaUSt e GNOD acaba com uma apoteose do público que demorou a descer à terra após quase duas horas de concerto.

FaUst & GNOD

O primeiro dia estava a ter o seu término e faltava mais uma actuação pela qual toda a gente esperava: Gaslamp Killer.


DJ que actualmente vive em Los Angeles mas que tem a sua origem e família quase em torno de todo o globo, trouxe ao festival um set que variou entre o punk, chegando a passar Nirvana, e o hip hop e o trap, passando nomes conhecidos como Kendrick Lamar. Apesar de existir uma grande parte de público a adorar o concerto, este fica na memória como um concerto em que pouco ou nada se adiantou visto que o DJ apesar de ter uma grande presença em palco, se observássemos este nunca esteve parado um segundo, não conseguiu cativar pela oferta que passou no seu set.

Valeu a pena ouvir a “Nissim” do seu álbum Breaktrhough.


Gaslamp Killer

A primeira noite iria terminar com Switchdance, DJ que toca em espaços como o Lux Frágil, que teve uma presença normal no festival, dando um set que se acostuma ao que estamos habituados a ver nas discotecas.


Com a manhã a subir começa também a chuva a cair e o medo de não existir primeiro dia de after também começou a fazer a cabeça a muita gente. Mas São Pedro foi amigo e conseguimos ir até Barcelinhos para o after da ÁCIDA onde actuavam os Solar Corona, grupo da terra do galo, que acordou toda a vizinhança e deu um excelente concerto para começar bem o dia.
Só depois deste concerto e de um pequeno-almoço consistente de panado misto e vinho verde é que daríamos por concluído o nosso primeiro dia, ou segundo, de Milhões de Festa.


Milhões de Festa 2017 - Dia 1



Reportagem por: Duarte Fortuna

Fotografia por: Ana Carvalho dos Santos
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