Reportagem: Tim Hecker & The Konoyo Ensemble [Culturgest, Lisboa]

Reportagem: Tim Hecker & The Konoyo Ensemble [Culturgest, Lisboa]

| Outubro 12, 2018 1:46 pm

Reportagem: Tim Hecker & The Konoyo Ensemble [Culturgest, Lisboa]

| Outubro 12, 2018 1:46 pm
Vera Marmelo ©
Tim Hecker 2014 vs. Tim Hecker 2018

A 26 de Outubro de 2014 fui ver Tim Hecker ao portuense Hard Club, e com intenso entusiasmo. Tim Hecker, na altura o meu melhor parceiro em dias de melancolia e noitadas de estudo. E tinha feito quase um ano do lançamento de Virgins (2013), que até hoje para mim se mantém como a melhor coisa electrónica da década corrente, uma obra-prima de ambiente erudito e drone: suberbo agridoce sonoro, ambiciosa técnica e angustiante emoção, é como se fizéssemos um profundo mergulho nocturno, uma sensação de enorme leveza e serenidade enquanto estamos embrulhados de água e negrume por todo o lado, indutor do melhor transe extra-sensorial. Aquela odisseia acústica aperta-nos de uma forma que pouca coisa é capaz… Tipo pós-rock com portátil e mesa de mistura. Se o termo pós-electrónica nunca foi usado, eu declaro já o Tim Hecker o rei desse lindo burgo.

Voltando ao Hard Club: entrei na sala, nevoeiro por todo o lado, escuro como o breu também. E assim se manteve por toda a performance, nem uma ponta de luz se levantou. Uma verdadeira rajada de ruídos brancos e de todas as cores, decibéis poéticos e apocalípticos. Vai-se a ver e ele não tocou nada do seu cardápio editado, o único som que reconheci foi o belo belo belo single para a Adult Swim “Amps, Drugs, Mellotron”. Mas não importou, nem uma hora foi mas pude experimentar a eternidade, senti que estava de pontas de pés e o céu abaixo de mim, que a qualquer altura no meio do escuro eu iria ver a luz ao fundo do túnel e estava em paz com isso. Paz, é isso. Tim Hecker, se não encarnava Deus, andou bem perto. Uma verdadeira dádiva. De coração e sorriso rasgados, igual triste igual feliz, fui para casa com os pés mantidos em bicos.


4 anos depois

Vera Marmelo ©

Love Streams, depois Konoyo. Permitam-me ser controverso: ou eu cresci ou Tim Hecker mingou. Não acho o Konoyo assim *tão* bom e o talvez-o-melhor-da-sua-carreira que tudo anda a especular. Tal como não percebo o enorme “meh” que Love Streams recebeu na altura. Na opinião, Konoyo está um pouquinho abaixo de Love Streams, e apesar de ambos serem bons, estão a milhas dos entorses na alma fornecidos por Virgins, Ravedeath, 1972, ou Harmony in Ultraviolet. Inegável que Konoyo é fiel ao seu compositor, muito interessante o uso de instrumentação tradicional japonesa e tem os seus lindíssimos momentos (como “This Life” ou o final de “In Mother Earth Phase”), mas acho que é mais um óptimo portefólio dos talentos de produção do artista que não se materializa num óptimo conceito como álbum (à semelhança do recente Age Of do Oneohtrix Point Never). Sem dúvida mais polido, mais directo e equilibrado, mas há um certo gelo e piloto automático em Konoyo, não chega àquele “sweet spot” de comoção, em vez de entrarmos num mar profundo e levitarmos no som, debatemo-nos com uma parede (não obstante bastante bonita) que se fica a observar.

Com isto em mente, fui ao Culturgest no dia 6 de Outubro de 2018, apesar de tudo bastante curioso por Tim Hecker trazer uma “banda”. Outra vez, a sala envolta em nevoeiro. Dejá-vu. A noite foi aberta com a comparsa de estúdio Kara-Lis Coverdale, com as suas costuras dum esoterismo digital reminiscente do Oneohtrix Point Never e Kaitlyn Aurelia Smith. Coisa de gostar e entreter mas não de pasmar. E com uma enorme fluidez, se fez transição para o divino.

Vera Marmelo ©

Deus lá entrou com os seus apóstolos, e desta vez Deus decidiu de facto tocar os sons de Konoyo: recordo-me de “This Life”, “In Death Valley,” “Across to Anoyo”. Foi assolador e soberbo ouvir o choro dos sopros japoneses e o belicismo do tambor, acompanhado pela sempre-etérea e algo caótica composição de Tim Hecker, que até teve oportunidade de tocar a solo por uns minutos. E foi uma coisa bonita, coisa que voltaria a ver mil vezes, mas senti-me como se a ver uma performance de magia conhecendo já uns quantos truques. Vi, não vivi. A primeira paixão é difícil de bater, mas não deixa de haver amor.

Tim Hecker é Tim Hecker, leva-nos a sítios que poucos conhecem e desafia-nos a ir com ele – e vamos com todo o gosto. No entanto não sei se foi o álbum apresentado, se foi o estar sentado num grande auditório (admitamos a ilógica de tal afectar o resultado emocional), mas não foi nenhum Tim Hecker 2014. Daqui a mais 4 anos haverão outros lançamentos, outros concertos, esperemos que Tim Hecker aprenda novos truques que eu desconheça para me deixar derreado. E se não, vivo bastante bem com isso, e continuarei a amar o gajo, e a confiar nele para me levar aos confins da alma.

Vera Marmelo ©

Texto:
Nuno Jordão
Fotografia: Vera Marmelo
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