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Super Bock em Stock: como duas inglesas tomaram o Coliseu de assalto e, pelo caminho, refletiram sobre identidade de género

Super Bock em Stock: como duas inglesas tomaram o Coliseu de assalto e, pelo caminho, refletiram sobre identidade de género

| Dezembro 11, 2023 6:27 pm

Super Bock em Stock: como duas inglesas tomaram o Coliseu de assalto e, pelo caminho, refletiram sobre identidade de género

| Dezembro 11, 2023 6:27 pm

Já verdadeira instituição, o Super Bock em Stock é um festival que decorre em Novembro durante dois dias por várias salas situadas na vizinhança da Avenida da Liberdade, em Lisboa, no eixo que vai do Marquês de Pombal ao Rossio, tendo-se chamado Vodafone Mexefest durante uma série de anos. O seu chamariz é a capacidade de dar a conhecer muitas bandas, à data pequenas ou pouco conhecidas do público, em ambientes intimistas. Um destaque desta edição foi a ênfase que a música cantada em português teve – tendência, aliás, que os festivais maiores estão a replicar – sem que, no entanto, nenhum nome nacional tenha sido apontado como cabeça de cartaz.

As salas com maior dimensão são o Coliseu dos Recreios e a Sala 1 do Cinema São Jorge, e são nestas que gravitam os nomes mais fortes do festival. Nas restantes é feita, não raras vezes, uma curadoria entre o tipo de som e a atmosfera do espaço – assim, concertos de hip-hop são frequentemente situados no Capitólio, no Parque Mayer, e outros, mais acústicos ou de sonoridades mais exóticas, em salas como a Casa do Alentejo ou a Sociedade de Geografia de Lisboa. A palavra “sala” deve ser considerada em sentido alargado, com espetáculos a decorrer por vezes em igrejas, em parques de estacionamento ou dentro de autocarros preparados para o efeito. Estando o festival completamente integrado na cidade, a viagem entre concertos é feita de variadas maneiras: é possível apanhar um metro, um táxi, o raro shuttle ou autocarro do festival, ou, mais frequente, andar a pé.

 

24 de novembro

Começámos o primeiro dia do festival na Casa do Alentejo para ver Inês Apenas: fomos surpresos pelo concerto ser no hall de entrada, de decoração mourisca, e não num dos salões acima como aconteceu em edições anteriores, ainda para mais quando, no centro da sala, uma espécie de fonte com motivos campinos tapa o palco. O público mostrou-se entusiasmado com Inês Apenas, pianista de formação, e que estava acompanhada por um guitarrista (apenas). Registo pop em “Fumar Não Mata”, que aqueceu o espaço com uma história de um rapaz que entra no quarto da cantora e que se põe de gatas, com a audiência a responder entusiasmada, tendo-se seguido depois “Batata Frita”, onde o teclado de Inês Apenas foi usado numa sonoridade jazz, semelhante à que muitos artistas portugueses têm lançado recentemente, como Fumo Ninja ou Margarida Campelo, por exemplo, não ficando Inês Apenas a perder na comparação.

Super Bock em Stock

Inês Apenas

No Capitólio começava a tocar Carla Prata, música luso-angolana nascida e sediada em Londres. Quando chegámos ela ainda não estava em palco, mas só a sua DJ, que pedia ao público mais entusiasmo. Falta de entusiasmo ou uma grande sala por encher? A segunda: quem lá estava dava à perna ao som de “Sirens”, de Travis Scott, enquanto Carla Prata não aparecia. Ela apareceu e mostrou que tem bela voz e canções diversas – baladas cantadas em português, mas também em inglês, como em “Keys”, de Sex Tape, EP deste ano, numa versão ao vivo mais pesada que a original. Puxou pelo público: perguntou se já tínhamos estado apaixonados – ao ver que a resposta foi tímida, pensou que lhe mentíamos.

Na descida do Capitólio para ver Filipe Karlsson, que inaugurava o Coliseu dos Recreios, houve tempo para uma paragem na Garagem EPAL (outra sala cuja disposição cénica é bastante discutível) para assistir ao concerto de YANG, percebendo cá de fora que o público se estava a divertir, muito devido à energia da banda. Não nos retivemos muito na Garagem EPAL, seguindo para o concerto de Filipe Karlsson, que tinha atraído a si uma notável audiência, ele que conhecemos dos tenebrosos Zanzibar Aliens, autores de um momento musical na vila de Paredes de Coura que deixou alguns de nós bem desconsolados. Muitos anos decorreram desde esse momento, e de facto o santo padroeiro mudou também, passando de Led Zeppelin a Duran Duran: acompanhado de uma banda eficaz, Filipe Karlsson levantou um pezinho de dança no Coliseu. “Razão” é Haircut 100, ou seja, funk inglês, e admirámos a rhythm guitar por ver como trabalhava diligentemente. Houve trechos do concerto que poderiam ser eliminados para benefício de quem os ouve, como uma longa improvisação psicadélica. Partimos depois de escutar “Madrugada”, single de 2022.

Também o psicadélico aflui à música dos Zarco, banda lisboeta que veio apresentar o disco Não Lembra ao Diabo, lançado este ano pela Cuca Monga. Editora esta onde estão também os Capitão Fausto, outra banda que actuou no festival e cuja influência se faz sentir nos Zarco. O local onde tocaram, na entrada superior da estação de comboios do Rossio, não foi generoso, com uma acústica pobre (e que não seria corrigida no dia seguinte). As riquezas sónicas que os Zarco nos poderiam ter brindado, considerando o registo em estúdio, com harmonias duplas e triplas, com guitarras de 12 cordas ou solo de clarinete, perderam-se durante o concerto. O instrumental de “Atira e Vira ao Mar”, por exemplo, ficou completamente anódino, aproveitando-se desta canção o final, que mostra o trabalho de Fausto a uma nova geração: “Devagar, de Mansinho”, em particular, parece decalcado de Por Este Rio Acima.

O País Brasil, para usar uma expressão Aleixiana, foi representado no primeiro dia de festival na forma do trio Gilsons (assim chamados por serem compostos por dois netos e um filho de Gilberto Gil), que encheram o Coliseu com a sua MPB doce, mas também os Projeto Naquele Tempo que foram a banda responsável por tocar no autocarro do festival. Acomodados nos lugares da frente do autocarro, com uma gigantesca coluna agarrada a um varão, este conjunto de samba, dotado de cantora, percussionista, guitarrista e até de um flautista, foi uma das maiores surpresas do festival pela energia contagiante. Duas vezes apanhámos boleia com o Projecto Naquele Tempo, tendo da segunda vez ido dos Restauradores para o concerto de Will Butler, na sala 1 (Manoel de Oliveira) do São Jorge.

É Will Butler um homem na sombra do seu irmão Win, ou do projecto em que ambos participam, os “desconhecidos” Arcade Fire? Casa cheia e fogosa sombra esta: Will dir-se-ia possuído por muitos demónios dançantes, e transmitiu-os para o público com a sua música a tempos lânguida e de confronto, juntamente com a banda que o acompanha, as Sister Squares, composta por três teclistas e um baterista. Will toca em tudo o que consegue agarrar (baixo, guitarra e sintetizadores) tendo tido ainda tempo para, perto do final do concerto, dar uma volta pelas primeiras filas da sala do São Jorge. Pudemos ouvir a divertidíssima “Anna” ou a disco “Long Grass” e constatar que as músicas funcionam melhor ao vivo que em estúdio, neste algo mortiças, mas transformadas durante o concerto.

Super Bock em Stock

Will Buttler & Sister Squares

A primeira noite terminou com o DJ set Batida b2b Bonga, que, julgando pelo estado atarantado em que estava o Coliseu quando chegámos, começou com problemas técnicos – se era bluff ou não, não sabemos dizer: Batida estava no palco e o “Kota”, como Batida se iria referir a Bonga no resto do set, estava sentado no camarote presidencial. Depois de trazida a Worldstation, metade mesa de mistura metade duplo trono, onde se sentou Batida, ou Pedro Coquenão, à direita do Kota, foi um positivo discorrer de ritmo – passando sons alternadamente com Coquenão, Bonga trouxe várias músicas suas, como “Mulemba Xangola”, “Frutas de Vontade”, “Currumba”, cantando e tocando um instrumento de percussão chamado dicanza (“não digam que é um reco-reco”, explica Batida), que nos deixou estarrecidos com a sua capacidade de incitar à dança e do quão completo é o seu som. Também houve tempo para passar músicas de Pedro Coquenão, como “Bazuca – Quem Me Rusgou”. Noite completa.

 

25 de novembro

Os nomes mais fortes do festival estariam guardados para o segundo dia – assim se dizia, assim se provou. Não façamos caixinha: as inglesas Jehnny Beth (que conhecemos das Savages) e Anna Calvi foram as rainhas da noite. Parámos na estação do Rossio para ver os Psychles (o “p” pronuncia-se), banda que tão depressa está em doces baladas como sobe aos píncaros do rock – mesmo que esse conceito não seja uniforme, com o vocalista a fazer lembrar o Lenny dos Motorhead numas músicas e Hamilton Leithauser dos Walkmen noutras. O som deixava a desejar, com solos de guitarra inaudíveis, completamente submetidos ao volume do baixo. Não se poderão tecer comentários definitivos sobre a banda neste manto de incerteza sonora – “We are Not The Enemy”, single deste ano, porém, tem sangue na guelra, por isso não estranho se os Psychles vierem a crescer em reconhecimento.

A arena do Coliseu estava mal preenchida para Jehnny Beth – ninguém terá avisado os restantes festivaleiros da potência do concerto que se seguiria, da qualidade do som que esta sala permite, redondo e completo, do uso feliz de efeitos estroboscópicos, tornando visual a agressividade natural da música – daí que um concerto surpreendente tenha sido ignorado, capaz de levar a casa abaixo se o público fosse outro, ou mais numeroso. Acompanhada por um baixista e uma teclista para apresentar TO LOVE IS TO LIVE, álbum de 2020, no concerto que finalizou a sua tour, Beth não veio brincar: exemplos de músicas desse álbum (e pontos altos do concerto) foram a ominosa “Heroine” ou “Flower”, reminiscente de Fever Ray.

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Jenny Beth

Demos um pulo rápido ao concerto tépido de Jason Miles na sala Ermelinda Freitas onde Miles apresentava uma música escrita acerca do furacão Katrina e de como este afectou a cena jazz de Nova Orleães. Não nos prendemos demasiado tempo por lá e subimos de novo ao Coliseu. Segundo round na arena e digladiava-se agora Anna Calvi: guitarra muito competente na lynchiana “Rider to The Sea” que abriu “Suzanne and I”, ambas músicas do álbum de 2011. O trabalho da guitarrista chegaria a novos picos no solo de “Indies or Paradise”, e no diálogo que voz e instrumento têm em “Wish”.

Diálogo também entre os dois nomes que calcaram o Coliseu esta noite, curadoria sobre o que é ser homem e mulher: “Don’t beat the girl / Out of my boy” diz Anna Calvi; “I’m the man / And the woman / Do you understand?”, canta Jehnny Beth. Ainda caberia nesta discussão Julian Casablancas, que tem com Beth uma parceria em “Boy/Girl”, mas a curadoria (ou o cachet) do festival não chegou a tanto e o vocalista dos Strokes não foi avistado.

Anna Calvi foi feroz no final do concerto, tocando “Desire”, fantástica canção do álbum de 2011, mas principalmente na cover que fez de “Ghost Rider”, dos Suicide, sem a violência da banda de Nova Iorque – ou antes uma violência latente, escondida na atmosfera densa que esta cantora e guitarrista tece. Coube a Legendary Tigerman fechar o espaço onde com gosto lutaram as inglesas e, por extensão, sendo a última sala da noite, fechar o festival.

Super Bock em Stock

Anna Calvi

Considerações finais sobre o Super Bock em Stock? Estrela não no seu auge, com salas mais pequenas, programação mais incipente, transportes mais escassos, bilhetes mais caros. Do conceito, porém, só faremos que elogiar: tornar as salas da baixa lisboeta (as naturais, as inesperadas) receptáculos dos novos sons nacionais e internacionais. Isso é no papel. Mas foi isso que ouvimos nestas duas noites de Novembro?

 

 

Texto: Francisco Fernandes

Fotografia: Nuno Alexandre

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