A.A.Williams no Mouco: quando a escuta é um aconchego emocional

A.A.Williams no Mouco: quando a escuta é um aconchego emocional

| Fevereiro 23, 2026 11:43 pm
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A.A.Williams no Mouco: quando a escuta é um aconchego emocional

| Fevereiro 23, 2026 11:43 pm

Figura de destaque na folk de contornos pesados feita no feminino, A.A.Williams regressou a Portugal para dois concertos em nome próprio – os primeiros como headliner depois de ter encantado audiências na abertura dos concertos dos Mono e no Amplifest, ambos em 2022.

Perante uma sala bem cheia que a recebeu de braços abertos, a artista londrina assinou uma atuação inegavelmente bonita e aconchegante, mas um nadinha aquém da força emocional estrondosa que dela já vimos anteriormente. Não que esta tenha estado totalmente ausente, mas mesmo com uma execução admiravelmente precisa, e com a boa resposta por parte do público, sentimo-la algo “contida” em determinados momentos, como se tudo estivesse a soar bem sem atingir verdadeiramente aquele nível “épico” que queríamos testemunhar.
Parte dessa sensação pode estar relacionada com as expectativas – particularmente elevadas, confessamos – que se formaram após as primeiras passagens que Williams assinou em território nacional, mas efetivamente esperávamos um pouco mais desta artista que, no passado, já protagonizou sessões inesquecíveis de intimidade musical.

Ainda assim, não deixamos de assistir a uma prestação envolvente, sempre ali entre o peso atmosférico das guitarras e a densidade emocional de músicas que se sentem como um sopro de introspeção poética. A voz de Williams manteve-se magnífica ao longo de todo o espetáculo, alternando entre o registo delicado e um tom mais imponente, como uma luz de esperança a atravessar a intimidade da escuridão. “Melt“, interpretada já na reta final, foi um dos momentos onde essa entrega vocal mais se mostrou grandiosa e comovente – a paixão incontida da sua performance a massajar-nos a alma com uma energia extraordinariamente assombrosa. Pelo meio ainda ouvimos os dois novos singles lançados nos últimos meses (“Just A Shadow” e “Wolves”, respetivamente), num alinhamento que percorreu o breve percurso de A. A. Williams e construiu a ponte entre o passado e o presente, entre tudo o que a compositora já foi e aquilo que ainda pretende ser.

A.A.Williams

“Evaporate”, com a sua aura cinemática e ambientes bem próximos do post-rock, encerrou com uma força esplêndida uma atuação que pode não ter superado todas as nossas expectativas, mas que voltou a apresentar A.A.Williams como uma das vozes mais relevantes da sua geração, alguém que se serve do peso, sonoro e emocional, para desencadear estados de espírito delicadamente profundos… E só por isso já merece que caminhemos ao lado dela nesta aventura coletiva, sempre prontos para com ela sentirmos o amor espalhado enquanto som.

Na primeira parte tivemos o que para alguns terá sido uma revelação e para outros a confirmação de uma promessa: falamos dos nova-iorquinos Spotlights, autores de um sludge/shoegaze (ou sludgegaze, se preferirem) com pitadas de noise verdadeiramente colossal, que mistura peso esmagador com sensibilidade melódica para criar esculturas sonoras monolíticas. Tal como no universo de Williams também aqui a intensidade é sentida tanto com a alma como com os ouvidos, mas a diferença é com os Spotlights a experiência é claramente mais avassaladora – que o diga o volume possante, ali no limiar da transcendência máxima, que nos parecia envolver numa teia para depois nos atirar para um buraco negro de som (para isso muito contribuiu também o baixo de Sarah Quintero, cujas frequências pareciam por vezes capazes de mover montanhas). Entre a veemência e a introspeção, por vezes em simultâneo, os Spotlights assinaram a mais bela das “jardas” atmosféricas, uma sessão fulminante de guitarradas tão potentes quanto etéreas que nos deixou extasiados. Sem dúvida alguma, estamos perante uma das mais excitantes propostas da música pesada feita de malhas no panorama atual (não pertencessem à Ipecac, a label do enorme Mike Patton), que absolutamente merece voltar cá brevemente. Um concerto inegavelmente triunfal, numa daquelas estreias que pede uma sequela.

 

Texto: Jorge Alves

Fotografia: Jorge Silva

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