Diamanda Galás na Casa da Música: a voz é a catarse que nos purifica, o assombro que nos estarrece e comove

Diamanda Galás na Casa da Música: a voz é a catarse que nos purifica, o assombro que nos estarrece e comove

| Fevereiro 26, 2026 12:21 am

Diamanda Galás na Casa da Música: a voz é a catarse que nos purifica, o assombro que nos estarrece e comove

| Fevereiro 26, 2026 12:21 am

Num reencontro raro com o público português, Diamanda Galás regressou ao nosso país para um total de três concertos, terminando a sua estadia na Casa da Música com uma atuação difícil de descrever com palavras por se situar num território mais poderoso que o da escrita: o da transcendência espiritual, do confronto visceral com uma panóplia de emoções vividas à flor da pele.

Ao longo de uma hora assistimos a uma das mais extraordinárias prestações vocais – e emocionais, pois  Diamanda também se serve do piano para melhor pontuar a grandeza da sua obra -, de que temos memória. Com setenta anos, permanece uma força da natureza que intimida e simultaneamente encanta, capaz de alternar entre o canto vigoroso e sublimes “exorcismos” vocais que perfuram a alma com uma intensidade alienígena. Mais do que uma simples performance, tudo em Diamanda grita libertação –  dos oprimidos, sim, não fosse a artista uma das figuras mais atentas ao sofrimento humano (recordemos, por exemplo, a trilogia Masque of the Red Death, dedicada à epidemia da SIDA que, em 1986, resultou na morte do irmão, o dramaturgo Philip-Dimitri Galás), mas também dela mesma, e de todos os que renascem quando confrontados com a beleza tão violenta quanto beatífica deste desabafo indomável. Aqui a voz não é somente um instrumento, é também uma entidade que, em palco, ganha vida própria… E se Diamanda a sabe controlar e manipular, por vezes parece mesmo deixar-se levar por ela, como se aceitasse ser possuída pela sua força imponente e inconformada, pelo seu caráter sobrenatural mas ao mesmo tempo intrinsecamente humano. Várias foram as alturas em que sentimos vontade de chorar por estarmos em contacto próximo com algo verdadeiramente excecional e singular, algo que representa o conceito de grandiosidade artística em todo o seu esplendor, e que precisamente por ser tão belo e puro, mexe implacavelmente connosco. Mas é precisamente assim que a arte de Diamanda Galás deve ser apreciada: entre o desconforto e o fascínio, entre a estranheza e a sedução, pois é na convergência desses extremos que reside a fonte do seu encanto. 

Num alinhamento que tanto incluiu homenagens a Hank Williams ou Rezső Seress (a excelsa “Gloomy Sunday”, reservada para o final), como interpretações magistrais de canções como “Artémis(1854)” ou “Let My People Go” (recordação que arrancou um forte aplauso da audiência, logo aos primeiros acordes), Diamanda Galás assinou um concerto assombroso e arrepiante. Na reta final “ameaçou” abandonar permanentemente o palco para depois  voltar – ao piano, à voz, a todo o seu universo de intimidade majestosa. Fê-lo três vezes, até que finalmente chegou o momento de dizer adeus. Quando tudo acabou, ficamos com a memória de uma prestação magnífica – suprema viagem de emoções fortíssimas que tomaram conta de nós, envolvendo-nos numa aura de contemplação eufórica.

 

Texto: Jorge Alves

Fotografia: José Silva

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