900

Cinco Discos, Cinco Críticas #76

| Julho 5, 2022 10:24 am

Este mês escrevemos sobre os novos discos dos cantautores Kevin Morby, Tess Parks e Angel Olsen, do trio queercore bbb hairdryer e da colaboração entre William Basinski e Janek Schaefer, dois nomes sonantes no mundo da música ambiente.

Kevin Morby – This Is A Photograph [Dead Oceans] 

“This is a photograph / A window to the past”: logo ao primeiro verso da vibrante faixa-título, Kevin Morby deixa-nos a sua declaração de intenções. Este é um disco-postal assumidamente nostálgico e com uma mitologia própria, talvez a obra de Morby que mais revela a sua faceta de discípulo dedicado aos mestres de tudo o que fica situado entre o blues e a folk, Elvis e Dylan, entre a soul e o country, Hayes e Cash. Todos esses caminhos entrelaçam-se, e desembocam num lugar: Memphis. É a partir dessa cidade, também ela cheia de mitos e lendas, que se conectam os pontos por entre os quais Morby navega, num álbum cheio de histórias com tanto de universal e saudosista como de íntimo e a pulsar de vida.

A percussão envolvente de Makaya McCraven é uma das novidades nos arranjos folk rock habitualmente descomplicados de Morby. Numa homenagem desarmante e cheia de “soul” a Jeff Buckley, também ele falecido ao largo de Memphis, afogado no Mississippi, o cantautor texano exibe novamente a sua capacidade rara para mesclar drama e humor: “And hey man, have you heard Buckley singing “Hallelujah”? / He did what Leonard never could to it, gave it wings then away it was / Number two in England, and they say you’re your daddy’s son / But Jeff, if you’re anything like me, you only care about America”.

Como habitual, a sombra da mortalidade anda de mãos dadas com o amor. Já perto do final do disco, surge “Stop Before I Cry”, uma apaixonada carta a Katie Crutchfield (conhecida musicalmente como Waxahatchee), companheira de Morby que serve de inspiração ao tema mais enternecedor da sua discografia. Entre estes dois reinos, o dos vivos e o dos mortos, o do que é e o do que já foi, as canções de Kevin Morby como que dialogam entre si. E é nesse universo que parece querer habitar também o próprio Morby, algures entre o mundo fantasioso de Memphis e a realidade vívida de abrir um velho álbum de fotografias.

Luís Sobrado

William Basinski & Janek Schaefer – “ . . . on reflection ” [Temporary Residence]

William Basinski e Janek Schaefer, dois experientes artistas com longas discografias onde predomina a música ambiente, uniram esforços para uma colaboração concretizada em longa-distância durante um período de oito anos, à qual chamaram “ . . . on reflection “.

Ao contrário do habitual nos álbuns de Basinski, aqui não encontramos loops reproduzidos em cassete. O som é limpo, sem as distorções e os ruídos inerentes a esse formato de reprodução. O instrumento central é o piano, protagonizando as composições minimalistas com notas que parecem quase aleatórias, mantendo-se numa só escala, mas sem nenhum fio condutor a que nos possamos agarrar, rodeado por acordes imersos em reverberação e gravações de campo que contêm sons que remetem para diferentes espaços, como carros em movimento ou o chilrear de pássaros. Esta viagem new age é interrompida pela terceira peça do álbum, a única que nos transporta para uma atmosfera diferente, onde encontramos um clima noturno e nublado protagonizado por um drone taciturno. Este breve contraste é bem vindo e refrescante, uma variação que mostra outra faceta do álbum e que pode renovar a atenção dos ouvintes.

A combinação de piano e gravações de campo pode não ser uma ideia muito entusiasmante ou criativa, podendo facilmente resultar em algo clichê, mas neste caso soa melhor na prática do que na teoria. “ . . . on reflection “ é um álbum sereno e gracioso que tanto recompensa audições atentas como escutas passivas.

Rui Santos

Tess Parks – And Those Who Were Seen Dancing [Fuzz Club]

A espera foi prolongada, mas sempre ouvi dizer que quem espera sempre alcança. Estamos obviamente a falar da enigmática Tess Parks, a canadiana que surgiu quase do nada em 2013 com o seu primeiro álbum numa época especialmente profícua para a música revivalista diretamente associada ao rock psicadélico, shoegaze, dreamnpop e do garage rock californiano. Ao entrar nesta viagem ao andar atrás no tempo víamos os My Bloody Valentine a regressarem aos discos com o seu inesperado m b v, os Fuzz liderados pelo irreverente Ty Segall lançavam o seu primeiro álbum, os australianos King Gizzard & The Wizard Lizard davam nas vistas com o seu Float Along – Fill Your Lungs, o neozelandês Connan Mockassin apresentava mais uma boa dose das suas colheradas doces e sensuais em tons de Caramel e a ex-editora independente norte-americana Burger Records vivia momentos de enorme sucesso e repercussão mundial com todos os seus lançamentos, festas e showcases.

Impulsionada desde cedo com as sucessivas colaborações com o líder Anton Newcombe dos Brian Jonestown Massacre ao tornarem-se desde então o complemento perfeito musicalmente. Foram precisos exatamente 9 anos para lançar o seu segundo álbum And Those Who Were Seen Dancing, gravado entre 2019 e 2021 em Londres, Toronto e Los Angeles. O título nasceu a partir de uma frase da corrente niilista de Nietzsche, ao simbolizar uma recente fase da vida de Parks em que deixou de ouvir música durante um ano devido a uma lesão que a impediu de tocar guitarra e piano durante um alargado período de meses. O famoso chavão de que a pressa é inimiga da perfeição é um princípio levado muito a sério por Tess Parks, sabendo de antemão que algumas destas canções presentes no disco estavam guardadas na gaveta mesmo antes da sua estreia.

Os sintetizadores analógicos característicos de uns Spacemen 3, uma voz carregada de eco e reverb a fazer lembrar a Hope Sandoval e uma progressiva secção rítmica de propriedades lentas que aludem a uma hipnose e um transe auspicioso de uma tempestade tranquila de contornos nublados localizada entre o melancólico, a fé e a esperança.

Eduardo Coelho

Angel Olsen – Big Time [Jagjaguwar]

Quatro anos após o lançamento de All Mirrors, Angel Olsen está de volta aos originais com Big Time, o sexto registo discográfico da artista norte-americana e quinto sob a chancela da Jagjaguwar. Este álbum foi gravado e misturado por Jonathan Wilson nos Fivestar Studios, em Topanga, na Califórnia, com Drew Erickson nas teclas/arranjos de cordas e Emily Elhaj, companheira de banda de Angel, encarregue do baixo. Big Time fala-nos sobre o “poder expansivo do amor novo”, e foi escrito durante uma altura em que a artista se afirmou como queer, experienciando amor e desgosto queer pela primeira vez. A contrastar com estas experiências de cariz amoroso, veio a morte dos pais de Angel Olsen, que faleceram a semanas um do outro.

Big Time surge então como um álbum bastante sentimental, possuindo instrumentais na maioria serenos e letras que mostram uma artista a tentar lidar com todas estas emoções profundas. Conseguimos vê-la apaixonada em músicas como “All The Flowers”, esta em que canta “Never thought the day would come; When I would find someone; To love me only” tão suavemente que nos penetra a alma e aquece por dentro. Do outro lado da balança, uma Angel Olsen devastada e de coração partido canta-nos “Tell me something good; Pull me out from what I’m in”, com instrumentais prontos para nos levarem numa viagem introspetiva, em “This Is How It Works”, manifestando uma certa dificuldade em lidar com o desgosto e a mágoa. Eventualmente, Angel começa a ver as coisas fluírem numa perspetiva mais otimista, mostrando-se esperançosa em relação a novos começos e grata pelos bons momentos em “All The Good Times”, uma das malhas que consegue ter instantes mais a rasgar musicalmente.

Este álbum acaba por se revelar bastante consistente, talvez o melhor desde o lançamento de My Woman em 2016, já que All Mirrors foi um bocado dececionante tendo em conta o potencial da artista e Whole New Mess foi só um rearranjo mais íntimo do disco anteriormente referido. Mas sem esquecer as suas bases, Angel Olsen decidiu aventurar-se um bocado pelos lados do country em Big Time, gerando aqui uma belíssima criação musical capaz de nos arrancar umas lágrimas dos olhos.

Tiago Farinha 

bbb hairdryer – Kingdom Hearts II Final Mix: pretty generic radio pop with a few fucks and edgelord lyrics

Kingdom Hearts II Final Mix: pretty generic radio pop with a few fucks and edgelord lyrics é o álbum de estreia dos bbb hairdryer, projeto queercore originário das Caldas da Rainha e fundado por Ro666in 666uerra em 2018. Tornou-se num trio em 2021, após o recrutamento de Duarte Eduardo no baixo e Filipe Serrazina na bateria.

Este primeiro LP contém dez faixas que, segundo descrição da banda no Bandcamp, “fermentaram, secaram, repousaram e apuraram ao longo dos 5 anos que viveram em links de Soundcloud, concertos ao vivo, cadernos e gravações de telemóvel”. Ao longo desses 5 anos, bbb hairdryer lançaram diversos singles e pequenos EP’s no Bandcamp (estilo Clairo pré-fama). Após deixar o projeto maturar, ficámos com um álbum barulhento, divertido mas cruamente auto-odioso. Sonicamente, é puro queercore, fazendo lembrar bandas da mesma veia como Limp Wrist, Excuse 17 ou, por vezes, os contemporâneos Sorry Mom. Tem também as suas pitadas de emo ou lo-fi indie à la Car Seat Headrest de início de carreira aqui e ali, dando alguma identidade ao projeto. É também difícil contornar a lírica, com as suas carregadas menções a satanismo e a nítida presença de uma certa ironia e sarcasmo, como é o caso de “i was wondering how it would feel like to jump out the window but im still alive so everything is ok i guess”, com o sarcasmo depressivo que tanto caracteriza o humor da geração Z e a realidade da depressão queer.

No fundo, bbb hairdryer mostrou com este álbum ter uma identidade própria dentro do underground português, mostrando-se ser um nome a ter em atenção.

João Pedro Antunes

FacebookTwitter