Entre imagem e som, terra e mar, BSP fundou o seu universo criativo. Construiu um sexto sentido, caracterizado pela fusão e associação de todos os outros. Desde a infância que BSP conviveu com uma condição neurológica chamada de sinestesia, que consiste na associação de informação sensorial através de sentidos que habitualmente não estão relacionados. A sinestesia foi sempre vista pela artista como um refúgio, uma tentativa de transformar o caos em algo belo e que pudesse ser experimentado por todos. BSP tanto tem a capacidade de ouvir como de ver a música, associando a cada som uma cor e, até, uma atuação em que a interação com público assume um lugar de destaque. O resultado disto é a criação de obras únicas, que não se limitam a fundir a pintura com a música – desafiam, acima de tudo, a nossa perceção da realidade. BSP pretende, sobretudo, criar algo que ganhe vida e possa ser experienciado por todos.
O seu percurso começou na ilha da Madeira, onde nasceu e cresceu. Tem vindo a contar a sua história por meio de performances em vários clubes de Londres (como Fabric London, Ministry of Sound, Queen of Hoxton e Notting Hill Arts Club), na Tate Modern Art (2022), na Bienal de Veneza, e até mesmo num documentário intitulado The Blending of Senses, emitido a 3 de janeiro de 2023 na Sky Art HD. Nos seus trabalhos ao vivo, BSP destaca-se pela abordagem não convencional, pela interligação dos vários sentidos e pela promoção de um diálogo entre arte e tecnologia. Para esse efeito, criou o seu próprio instrumento musical – um set de música eletrónica formado por quatro telas interligadas e equipadas com sensores personalizados, que reagem ao toque e produzem som enquanto a artista pinta.

Musicalmente, BSP segue um estilo pop contemporâneo, marcado pela sua voz suave e um certo minimalismo no instrumental, maioritariamente composto por efeitos produzidos eletronicamente. Em 2022 lançou In My Garden, álbum que tem como temas principais a ligação à natureza, a interligação das várias formas de vida, a consciência ambiental e os tumultos da própria vida interior (no tema “I Think“, a ansiedade e o confronto entre o mundo real e as ideias representam-se no verso “Instead of living, I think”).
De um modo geral, há uma grande coerência nos vários trabalhos da artista, surgindo de novo em destaque o tema da exploração à natureza. A 31 de outubro, juntamente com o produtor alemão Frequency33 (Noah Kempf), BSP lançou o single “Drip by Drip“, com a assinatura da editora HITMINT MUSIC (também sediada em Londres e focada em promover o trabalho de artistas independentes). A artista optou por lançar a canção (que será futuramente parte de um EP) apenas no Bandcamp, pondo em causa os atuais modelos de streaming e a relação entre artistas e indústria musical – evidenciando, uma vez mais, uma forte consciência, não só ambiental, mas também social.
“Drip by Drip” é um tributo ao elemento água, tradicionalmente associado às várias formas de arte derivadas das suas propriedades e à quantidade de significados que carrega: vida, emoção, versatilidade, movimento, capacidade de refletir luz, mudança e transformação, o inconsciente, profundidade, tranquilidade, poder, tempestade; uma reflexão sobre o significado que atribuiu a este elemento, que sempre marcou a sua vida: cresceu numa ilha, pelo que a água assumiu um papel quase paradoxal – era tanto o motivo do seu isolamento do resto do mundo, como um elemento de ligação e de transformação pessoal.
Os efeitos na voz no início da canção lembram o nevoeiro, que muitas vezes se vê no mar durante a noite (“In the hush of moonlight/I call you near/A whisper from a deep sigh/secrets crystal clear”), e cada compasso simboliza uma corrente lenta, que nos leva progressivamente para um estado de calma e de renovação – mesmo o próprio refrão confere a ideia de um movimento lento, incremental, progressivo, representando uma evolução pessoal que se faz sem pressas. Esses mesmos efeitos e o próprio timbre conferem um lado luminoso a este single. O seu ritmo lento e as várias invocações feitas à própria água faz com que pareça uma oração típica de uma religião pagã. “Drip by Drip” é, então, um pedido à “water witch” para nos mostrar o caminho para voltarmos a ser nós mesmos, provando que a natureza é aquilo que falta para nos sentirmos completos. A água funciona assim como um “feitiço da natureza”, sendo as próprias correntes uma misteriosa “dança sagrada”.
Em suma, “Drip by Drip” é mais um exemplar do repertório de BSP, que combina em si vários sentidos e que nos leva numa viagem por entre as ondas – uma viagem pelo som, pelo movimento e pela própria luz. Quando “Drip by Drip” se refere à água como “luz líquida”, traz ao ouvinte a sinestesia, sendo possível imaginar a luz visível e a água que escorre pelo corpo. Acima de tudo, “luz líquida” pode mostrar que, para BSP, esperança equivale a água no estado líquido. Transforma-se, assim, uma ideia num objeto concreto. Recorrendo a um tema tão importante nos dias de hoje – num momento em que água escasseia e as ameaças da crise climática se fazem sentir cada vez mais -, BSP veio desafiar a noção de que a música é uma linguagem abstrata. Esta concretização das ideias em objetos ensina-nos a valorizar o que ainda temos, relembrando-nos de que ver não é somente olhar. Desafia-se a noção daquilo que é observar – nem sempre vemos na totalidade tudo o que observamos. “Drip by Drip” é, então, uma expansão e um convite a sentir mais… e melhor.



