Baleia Baleia Baleia
OUTRA VEZ ARROZ

| Fevereiro 16, 2026 12:16 am

Os Baleia Baleia Baleia são um duo já muito conhecido e acarinhado pela cena musical portuense. Juntos, Miguel Molarinho (baixo e voz) e Ricardo Cabral (bateria e voz) criaram a sua própria estética e propagaram a sua contagiante filosofia de vida – aquela que propaga o amor em vez do ódio e que acredita na dignidade do ser humano, mesmo quando ela é constantemente posta em causa. Definem-se principalmente pela música de intervenção feita com poucos elementos (baixo, bateria e voz) e cujo resultado é a solidez esperada de uma receita já bastante aprimorada.

Em 2025, lançaram o single NPC” e, desde 12 de fevereiro, já estão disponíveis o single “DEIXA O FRIO ENTRAR” e o álbum OUTRA VEZ ARROZ, terceiro registo de estúdio da banda, que surgiu após Baleia Baleia Baleia (2018) e Suicídio Comercial (2022). OUTRA VEZ ARROZ conta com o apoio da Fundação GDA e da editora Saliva Diva, mantendo sempre a muita característica abordagem DIY e demonstrando a experiência de quem já passou por palcos em Portugal, Espanha, Irlanda, Bélgica e Brasil.

OUTRA VEZ ARROZ tem um início fortíssimo com o tema “ANTIFA AO CONTRÁRIO É OTÁRIO”, que conta com participações de Scúru Fitchádu, EVAYA e do Coro Informal Antifa. É o mote e a razão de ser do álbum – o célebre grito “Não passarão!”, usado para cortar o fascismo pela raiz e que nos fica na cabeça. É um grito, uma guerra declarada à extrema-direita e um afirmar de uma convicção profundamente humanista – “enquanto sobrar coração”, “enquanto houver ar no pulmão”, enquanto o ser for humano, não haverá lugar para o ódio e para a desinformação. “ANTIFA AO CONTRÁRIO É OTÁRIO” é também uma crítica ao liberalismo e à destruição da natureza (“Vivemos numa selva sem árvores, banhada pela chuva ácida dos rios que envenenámos“), assim como à dependência tecnológica e à hipocrisia do observador indiferente, “que vê o mundo a arder, mas aproveita o calor para fazer pipocas“. Este é um tema que combina força e intensidade típicas do punk com a suavidade do spoken word, uma voz de consciência que nos lembra que “o capitalismo morreu, só temos de o saber enterrar“. A luta contra o fascismo não é o único conflito presente neste álbum. Logo de seguida, somos levados numa viagem por noites em claro, pela vida em constante ligação (um efeito colateral da inovação tecnológica), com demasiada informação e sem descanso. Os temas ” VAI CHAMAR-SE OVERTHINKING, OU SE CALHAR NÃO, TALVEZ SEJA MELHOR UM TÍTULO EM PORTUGUÊS”, “NPC” e “SOBRESTIMULADOS”, são, na verdade, manifestações da saturação (simbolizada pelo instrumental e pelos ritmos acelerados na bateria) de quem está farto de procurar a felicidade, procura essa que leva a mais tristezas do que alegrias. Os temas falam da ausência de sentimento de pertença num mundo demasiado individualista, sobre o desespero de querer pôr tudo em pausa e de não ser capaz de desligar as fontes de stress. Em suma, estes três temas relacionam-se entre si, tendo em comum a fúria do post-punk e do falhanço da vida contemporânea, toda ela feita de automatismos. Contrastando com todos estes temas mais pesados, surge “DEIXA O FRIO ENTRAR”. Mais calmo, suave e intimista, assume-se como segurança no meio do caos. É um porto seguro, uma canção sobre aceitar as emoções negativas, sobre deixar as lágrimas correr, sobre chamar à conversa todos os aspetos de uma pessoa e não apenas os que são fáceis de aceitar – nestes últimos, estão incluídos as ansiedades, as indignações, a raiva e os medos. Por volta dos 4 minutos, toda a calma se converte num instrumental explosivo, simbolizando o frio e a turbulência emocional.

Após um momento de vulnerabilidade, os Baleia Baleia Baleia voltam à carga e usam o humor como arma em “AUTO-EXTINÇÃO” e “SUPER AGROBETO”. “AUTO-EXTINÇÃO” usa da ironia através da repetição da frase “Não mudes nunca, não“, procurando, assim, denunciar o estado em que o mundo se encontra. É sobre guerra, destruição, genocídio, sobre a dificuldade de encontrar soluções alternativas aos conflitos e de acreditar nessas soluções (“Combatemos pela opressão/Se alguém mostra outra solução/É utopia“) e sobre a falta de espaço para opiniões divergentes (“Mas quem discorda num apontamento/É inimigo“). Já “SUPER-AGROBETO” procura educar o ouvinte sobre a natureza de um grupo específico de pessoas (os “Agrobetos”), que perpetuam ideias apontadas como destruidoras da democracia. O tema abre com uma melodia dissonante e algo improvável, como que demonstrando que o “Agrobeto” é precisamente a dissonância da sociedade. O termo “Agrobeto” consta na gíria portuguesa e é de difícil tradução (em Inglês, seria talvez Rural-chic ou Country-Preppy, mas a tradução reduz um pouco o verdadeiro significado da palavra). O “Agrobeto” é um estereótipo, dir-se-ia até um tipo social, não designando apenas uma simples relação com a terra ou uma forma de vestir, como faz crer a tradução inglesa. Geralmente, refere-se a jovens portugueses de classe alta (como dizem os Baleia, “Nasceu num berço de magia da alta burguesia/E acha que o seu conforto/Vem da meritocracia“), com ligações a áreas rurais e herdades. Geralmente, gostam de touradas e são conservadores (“Vibra com um touro morto e é contra o aborto“), contra as mulheres (“Confunde embrião com feto/E mulher com objeto“), e colocam-se num pedestal (“Ninguém serve para nada/A não ser eu“). O “Super Agrobeto” emite opiniões desinformadas, defende a privatização total dos serviços, quer construir campos de golfe, lamenta-se por ninguém seguir as tradições que lhe são convenientes e posiciona-se como salvador de uma nação perdida, invocando os seus “extremos direitos” mesmo quando o caso não lhe diz respeito. É impossível ignorar a veia satírica, irónica e humorística dos Baleia Baleia Baleia, que tanto nos fala dos opressores como dos oprimidos, que tanto fala de dor como de prazer. E é precisamente de prazer que trata “HEDONINHO”, cujo nome é uma aglutinação das palavras “Hedonismo” e “Ninho”. A letra funciona precisamente como um ninho de verbos soltos, que indicam ações que podem trazer prazer e dor, resumindo, assim, a vida, feita dos seus altos e baixos. “HEDONINHO” prova, assim, que em cada verbo e em cada pequena ação está um ato de resistência, e que essa resistência que criamos para nós pode ser a nossa casa. Por vezes, mesmo os momentos de dor podem trazer felicidade, pois a felicidade também pode estar na coragem de gritar por aquilo em que se acredita, por muito que o grito pese e doa nas cordas vocais. Não importa quão difícil seja a dor, pois é sempre possível procurar prazer e o lado positivo no meio dela – isso é resistir.

Baleia Baleia Baleia

Ficamos, assim, com “OUTRA VEZ ARROZ” – tanto nome do álbum como nome do tema instrumental que lhe dá nome, que explora barulhos e feedbacks para demonstrar que a partir do supérfluo e do incómodo também se faz música. O “arroz” que aqui se fala é uma sombra de passado sombrio que está a renascer das cinzas, passado esse retratado por estes efeitos sonoros. “OUTRA VEZ ARROZ” é a representação sonora da ditadura, que fere ouvidos, vidas, sensibilidades – uma ditadura cujas ideias são barulho para as mentes despertas e esclarecidas.

Todo e qualquer ato de criação é uma forma de resistência – seja ao vazio do quotidiano, seja à ditadura, seja ao cansaço físico e psicológico provocado pelo excesso de estímulos. “OUTRA VEZ ARROZ” é uma tentativa de dar voz aos que não têm voz e um alerta que nos faz questionar: será que aquilo que temos hoje é mesmo o que queremos? O que fazer para mudar o curso das coisas e comer algo diferente ao jantar? A resposta está neste álbum.

Fotografia: Catarina Santos

FacebookTwitter