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Jenny Hval em entrevista: “Acho que todos os discos que lanço são os meus mais e menos autobiográficos”

Jenny Hval em entrevista: “Acho que todos os discos que lanço são os meus mais e menos autobiográficos”

| Novembro 22, 2022 1:00 am

Jenny Hval em entrevista: “Acho que todos os discos que lanço são os meus mais e menos autobiográficos”

| Novembro 22, 2022 1:00 am

Ao longo da sua renomada carreira, a norueguesa Jenny Hval explorou, sob um prisma provocador e contemporâneo, os conceitos do amor, do sangue, do género e do capitalismo, questionando a condição e o lugar da mulher no século XXI.

Classic Objects, o seu mais recente álbum, apresenta um ângulo diferente: combinando ambição experimentalista com uma vincada sensibilidade pop, o disco – o sexto da artista em nome próprio e o primeiro pela histórica editora 4AD – é uma viagem ao interior da cantora, compositora, poeta e ensaísta que, impedida de atuar, produziu a sua obra mais luminosa, alternando entre a vinheta autobiográfica (as contradições de ser uma mulher feminista, independente e ao mesmo tempo casada) e o infinito particular (“Jupiter”, um dos oito temas presentes em Classic Objects, resgata uma visita à instalação Prada Marfa, situada no deserto do Texas, debruçando-se posteriormente num diálogo existencialista com o cosmos).

A propósito da sua passagem por Portugal, dias 22, 23 e 24 de novembro em Espinho, Lisboa e Braga, abordámos a artista para uma breve conversa sobre a incerteza, os efeitos da pandemia e a posição do artista enquanto figura subversiva.

Ao longo da tua carreira foste trazendo todo o tipo de extravagâncias para o palco, desafiando os limites da performance ao vivo. Agora dizes estar mais interessada em apreciar o ato de tocar música ao vivo, adotando um formato mais íntimo de banda. O que podemos esperar das atuações em Portugal?

Visuais 3D, canções do álbum, canções antigas, canções novas, percussão, setlists em falta, camisas suadas, estar em pé e estar sentada, imagens e sons de um atelier desorganizado. Na verdade, não sinto que seja muito diferente dos espetáculos anteriores, [que eram] mais performáticos — perucas, móveis insufláveis e outros elementos visuais que usei anteriormente vão ser substituídos pelas minhas péssimas tentativas de stand-up. Está tudo relacionado.

Numa conversa conduzida por Sophie Kemp para a Crack falas sobre como cada álbum que lanças parece ser o teu último, e na forma como isso te deixa mais confiante relativamente ao que estás a escrever e interpretar. A incerteza desempenha, portanto, um papel importante na tua música?

Não sou capaz de responder a essa pergunta como antigamente. Talvez de modo nenhum! Há dois anos teria falado sobre a incerteza de uma indústria musical em rápida mudança e a minha própria posição comprometida enquanto artista pequena, mas apoiada por essa mesma indústria. Hoje diria que a incerteza é esmagadora no campo da música e no mundo em geral. Não tenho ideia de como vamos continuar a trabalhar. Estamos todos a trabalhar no escuro.

Comparaste as canções do Classic Objects a “versões despidas” de ti mesmo. Quais foram os principais desafios de relatar as tuas próprias experiências individuais? Pode este ser considerado o teu álbum mais autobiográfico?

Penso que não, na verdade. Acho que todos os discos que lanço são os meus mais e menos autobiográficos, de maneiras diferentes. O que se reduz no Classic Objects é o som pessoal — eu não toco nenhum instrumento (bons amigos e colegas tocam-nos por mim, e lindamente). Não tens a oportunidade de experienciar como eu toco, apenas a minha voz. E isso fez-me sentir nua, impedida de usar o meu corpo de certa forma. Também conto histórias bastante lineares. Mas agora que já se passou algum tempo desde que foi lançado, acho que a voz do álbum quer ser singular e coletiva ao mesmo tempo: singular como quem fala de onde vem; coletiva como o sentimento coletivo de estarmos encalhados no vazio pandémico, incapazes de sermos nós próprios.

Gostava de falar também sobre o casamento e a tua relação conflituosa com essa instituição, que acabou por informar o teu novo álbum.

Acho que o tema “Year of Love” meio que resume tudo o que sinto sobre o casamento… Considero a instituição do casamento extremamente problemática de um ponto de vista feminista e de género, ainda que me sinta comovida pelas expressões de amor e que respeite as diferentes experiências das pessoas. O momento em que uma pessoa pede alguém em casamento durante um dos meus espetáculos também me fez pensar em como o papel do artista é extremamente problemático. Eu também sou casada, estou a viver um relacionamento heterossexual. Posso criticar a normatividade?

Ainda sobre esse episódio, em que alguém se propôs durante uma das tuas performances, não achaste tudo um pouco intrusivo?

Sim.

Li também que a música devocional de Alice Coltrane e Sufi Qawwali serviu de banda-sonora para as sessões de gravação do teu novo álbum. De que maneira é que a espiritualidade se manifesta na tua música? 

Na realidade ouvi isso tudo há muitos anos. Não me lembro de ter ouvido nada em particular durante o desenvolvimento do Classic Objects. Mas adoro música que me transporta para um lugar espiritual, música que ousa olhar além, abrir a cortina entre a terra e o céu. Como a Alice Coltrane.

Em 2021, a propósito dos 40 anos da 4AD, atreveste-te na tua própria versão do tema “Sunbathing”, dos Lush. Foi o teu primeiro lançamento sob a alçada do histórica editora britânica, que editou também o teu novo álbum. Como é que surgiu este encontro? Manténs alguma ligação particular com o seu catálogo, novo e antigo?

Eu cresci ao som da 4AD. Lush, Cocteau Twins, Dead Can Dance, The Breeders, tantos outros. Kristin Hersh! Mas agora amo a minha label por estar incrivelmente envolvida no trabalho dos artistas. Têm um catálogo único, mas vivem e respiram o presente. São super dedicados. Estive na sede deles em Londres há tempos e saí de lá com uma vontade enorme de ouvir discos para o resto da minha vida, recordando-me do quanto a música significa para as pessoas.

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