MALABOOS
Sintétika

| Fevereiro 23, 2026 11:51 pm
MALABOOS_SINTETIKA_BIRUTA

Os MALABOOS são um trio de art rock constituído por Diogo Silva (guitarra e voz), Ivo Correia (bateria e sintetizador) e Rui Jorge (baixo). O grupo caracteriza-se por uma grande cumplicidade entre os seus membros, visível no álbum lançado em 2021, Nada Cénico, que explora a dualidade calma-caos. A 23 de fevereiro, lançaram o EP Sintétika (com edição de Biruta Records), após terem revelado no ano passado o seu primeiro single de antecipação, “333”. A acompanhar o EP, a banda lançou também o single homónimo “Sintétika” e o respetivo videoclipe.

Cada um dos membros revela um percurso interessante e já consolidado no circuito alternativo português: Diogo Silva é diretor musical e guitarrista/baixista de Papillon, além de produtor e compositor de artistas como LON3R JOHNY, Chong Kwong, Matshi e Madman; Ivo Correia é baterista de Indignu (um nome de referência do post-rock português); Rui Jorge integra a banda Bed Legs, mais um nome com uma reputação sólida em Portugal.

Além da vasta produção, já tiveram a oportunidade de dar concertos ao vivo com fortes elementos sonoros e visuais, em festivais como Sons de Vez, Festival de Jazz de Viseu e Guimarães Noc Noc.

Sintétika surge como uma nova etapa, marcando uma evolução na sonoridade da banda, já que este é o primeiro trabalho exclusivamente instrumental. No entanto, os traços principais da música dos MALABOOS mantêm-se: a procura por transcender limites, a exploração de dualidades e contradições, a liberdade e a autenticidade.

Malaboos

© Rodrigo Fernandes

O EP procura explorar o duplo sentido da palavra “sintético”: funciona não só como uma crítica à artificialidade na música atual, provocada pelo uso excessivo da tecnologia, mas também como uma representação de algo reduzido apenas ao essencial, sem recorrer a grandes artifícios. Sintétika é um trabalho que combina a força do hardcore com ritmos energéticos e imersivos. Há, ao longo do EP, um contraponto entre o orgânico e o sintético, que explora as emoções por detrás da precisão dos elementos e efeitos característicos da música eletrónica.

O tema “K666” abre o EP e começa de forma lenta e gradual, conferindo a dose ideal de mistério. É este início que nos faz mergulhar de cabeça no universo dos MALABOOS, onde não existem meios-termos. Há uma voz que conta até 3 logo no início e, mal acaba a contagem, somos levados por uma descarga sonora, com um ritmo marcante e preciso, uma riff de guitarra forte e um baixo que nos transmite a ideia de escuridão. “K666” é um aviso, uma porta que se abre de rompante e que nos diz que o caminho que percorremos pode ser acidentado e difícil, mas prometedor.

Em segundo lugar surge “Taiko”, tema que é sobretudo marcado por uma sonoridade de guitarra típica do rock português. Segundo a banda, é uma homenagem sentida a todas as bandas portuguesas que marcaram a cena cultural com a sua crueza, autenticidade e irreverência. “Taiko” é muito estruturado, com melodias que ficam no ouvido, e que transmite força, e alma. Assim, é uma reinterpretação muito pessoal e original de uma sonoridade tipicamente portuguesa.

Em terceiro lugar, surge o tema “333”,  caracterizado por uma melodia agradável e leve na guitarra, uma bateria enérgica que confere ordem no meio do caos, e um baixo que uma vez mais confere mistério ao som. Em “333”, por cima dos instrumentos, existem pequenos apontamentos na voz e efeitos sonoros (como distorções) e provocados por elementos industriais, que procuram criar caos e desordem, criticando a forma como a música tem sido criada nos últimos tempos. Uma canção que constrói e desconstrói.

Já o tema “Imptus” fala sobre a urgência de agir, abrindo com sons agudos e frases melódicas repetidas, criando um cenário alarmante e inquietante. Logo de seguida, surge um momento mais calmo, com samples de uma voz que parece gritar por instinto, como forma de libertação e de sobrevivência. O tema é rápido, como que simbolizando uma corrida contra o tempo, em que a voz se apercebe que, por muito que corra, vai ser sempre tarde demais. Chegamos ao tema central, “Sintétika”, que personifica o conceito deste EP: a fusão entre o hardcore e a música eletrónica, entre aquilo que é humano e o que é artificial, entre a agressividade presente em qualquer emoção verdadeira e a lógica precisa dos elementos digitais. É um tema que não tem medo de experimentar nem de brincar com os limites dos efeitos e dos ruídos, provando que, mesmo num mundo cada vez mais dependente da tecnologia, é possível não perder a autenticidade. Na natureza, nada se exclui.

O EP termina em beleza com “Vertigo”, que nos leva ao extremo. De repente, estamos mergulhados num outro universo em que tudo parece fatal e final. Parecemos estar na iminência de nos transformarmos em alguma coisa, parecemos estar sempre à espera dessa transformação. A música transmite precisamente o desequilíbrio que surge quando permanecemos entre uma coisa e outra durante demasiado tempo.

No entanto, por volta dos 3 minutos e 10 segundos, o tema transforma-se radicalmente, mostrando uma possível libertação: por outras palavras, é como se os MALABOOS nos mostrassem que não temos de permanecer sempre no mesmo lugar e que podemos ser diferentes de inúmeras maneiras.

Sintétika transformou o som dos MALABOOS. Esperamos ansiosamente pelo dia 28 de março, dia em que esperamos sentir-nos transformados ao vivo e a cores, no RCA – Radioclube Agramonte, no Porto.

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