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Melhores do ano 2023: Nacionais

Melhores do ano 2023: Nacionais

| Janeiro 8, 2024 9:00 am

Melhores do ano 2023: Nacionais

| Janeiro 8, 2024 9:00 am

O ano de 2023 ficou indubitavelmente marcado pela crise da habitação, da inflação, do reacendimento ainda mais brutal do conflito Israel – Hamas, da perpetuação das atrocidades cometidas na Ucrânia, do desenvolvimento desenfreado da Inteligência Artificial — tudo fatores que têm tornado a qualidade de vida e a nossa coexistência cada vez mais sombria.

No entanto, a música acompanhou todos estes eventos e serviu para apaziguar um pouco as nossas vidas. 2023 não foi exceção no que toca à música que se faz em Portugal, esse país desgovernado. Quem não ficou na margem e nos mostrou o que melhor há nela foram os rapazes de Barcelos, Glockenwise, bem como a DJ e produtora Nídia, que se propôs a repensar o domínio colonial através da dança e da experimentação. A serenidade e o aconchego tépido de Marlene Ribeiro ajudaram-nos a não perder a esperança, e a estreia dos MДQUIИД., a maior surpresa de 2023, confirmou que o futuro da produção nacional está em boas mãos.

Concluídas as escolhas dos discos que mais nos acompanharam em 2023, desvendamos a lista que destaca a melhor música feita em Portugal para a redação da Threshold Magazine.

20. Pedro Ricardo – Soprem Bons Ventos

19. Kmado – I Set a Sail Ablase Across the Sky

18. usof – Wish You Were Nicer

17. DJ Danifox – Ansiedade

16. João Não & Lil Noon – Se Eu Acordar

15. Cave Story – Wide Wall Tree Tall

14. Lucifer Pool Party – Lucifer Pool Party

13. Marquise – MARQUISE

12. Dispirited Spirits – The Redshift Blues

11. Cobrafuma – Cobrafuma

10. Império Pacífico – Clubs Hit

O duo Império Pacífico lançou no início do ano o seu terceiro álbum Club Hits, depois das pedradas no charco que foram os registos Flagship e Exílio. Club Hits demonstra ser o próximo passo do progresso orgânico do estilo eletrónico ambiental do duo, cuja ambivalência revolve entre o minimal e o energético e que tanto pode servir para umas rodagens mais cómodas, como pode também convidar para um pézinho de dança, intersectando com elegância padrões etéreos de sintetizador com batidas potentes e compassadas. Essa dicotomia é demonstrada em pleno em faixas mais planantes como “Afterparty” (notável também pela presença de Panda Bear) e “Copos”, bem como em músicas mais agitadas como as contagiantes “132 Hit” e “Sunset Blvd (90’s Spin)”. Ruben Leite

9. Unsafe Space Garden – WHERE’S THE GROUND?

Os Unsafe Space Garden afirmam-se novamente como uma lufada de ar fresco no cenário musical nacional com o lançamento de WHERE’S THE GROUND?. Oaguardado sucessor de Bro You Got Something In Your Eyes – A Guided Meditation não desapontou, mantendo a irreverência e o sarcasmo como elementos-chave do seu estilo próprio. O álbum destaca-se por um discurso cada vez mais introspetivo, onde o sexteto vimaranense expressa aspirações por um mundo melhor, ou, para se ser mais preciso, um mundo onde o discurso seja mais respirável e a realidade mais palpável. A habilidade da banda em harmonizar críticas sociais com uma abordagem sarcástica e humorística permanece notável, revelando-se de maneira vívida, especialmente durante suas performances ao vivo.

WHERE’S THE GROUND? é, sem dúvida, um testemunho do compromisso contínuo dos Unsafe Space Garden em desafiar fronteiras e explorar territórios musicais inexplorados, mantendo sempre uma atitude divertida e cativante. David Madeira

8. João Borsch – É Só Harakiri, Baby

É Só Harakiri, Baby, o segundo álbum do artista madeirense João Borsch, é uma masterclass de como fazer música pop moderna exímia em português. A identidade sonora do álbum prima pela sua versatilidade e ousadia, denotadas pelas mudanças constantes de tom e de estilo levadas a cabo ao longo do seu alinhamento. A música de Borsch tanto pode ter um cunho mais exuberante e fluorescente num momento, como pode ser mais melancólica e vagarosa no outro; ou pode ser tanto uma balada movida a piano, como pode ser uma faixa dançável com produção eletrónica, e assim sucessivamente. Para rematar este registo de luxo, incluem-se as letras – possuidoras de um sentido de humor mordaz e cantadas com a voz flexível de Borsch – a contar a narrativa de uma personagem que cede a uma vida de constante hedonismo. Ruben Leite

7. Marlene Ribeiro – Toquei no Sol

Marlene Ribeiro é uma artista nascida e criada em Portugal, agora residente no País de Gales, após uma adolescência vivida no Reino Unido. Ao longo da sua trajetória a compositora tem moldado uma linhagem de música experimental. Apresentou-se como Negra Branca no passado, e durante vários anos fez parte dos iconoclastas britânicos GNOD. Colaborou também com artistas renomados, como Valentina Magaletti – culminando na edição de Due Matte em 2020 – e Thurston Moore, entre muitos outros.

Estreou-se em nome próprio em 2023 com Toquei o Sol, obra resultante de uma parceria entre a Lovers & Lollypops e a britânica Rocket Recordings. Gravado entre Irlanda, País de Gales, Salford, Madeira e Portugal Continental, o álbum de Marlene Ribeiro manifesta-se como um registo autorreflexivo e orgânico, profundamente inspirado pela sua avó Emília, cuja influência se materializa nos sons da sua cozinha na faixa de abertura, “Quatro Palavras”.

Ao longo de Toquei o Sol somos brindados por cadências serenas, quentes e leves, provenientes de inúmeras gravações de campo. As tonalidades presentes evocam memórias de outros mundos, proporcionando uma autêntica jornada melódica transcendente e hipnótica, evidenciada especialmente na faixa-título e em “You Do It”. Rui Gameiro

6. Nídia – 95 MINDJERES

Ao terceiro álbum, Nídia Sukulbembe está mais combativa, mais urgente, e mais contundente. 95 Mindjeres, editado em outubro deste ano pela Príncipe, é mais uma declaração de independência, reenquadrando o papel decisivo das mulheres que lutaram pela libertação da Guiné-Bissau do domínio colonial português a partir de uma colagem frenética de polirritmos, tapeçarias eletrónicas e grooves desafiantes. Há aqui dança e experimentação, tensão e harmonia em igual medida, vanguarda e tradição, bem como um desejo vincado de cruzar os sons da diáspora africana corporizada pelo semba, o kizomba e o tarraxo com os ritmos urbanos da experiência latina, num admirável diálogo de culturas em movimento. Filipe Costa

5. ben yosei – lagrimento

No passado dia 13 de maio, o artista conimbrense ben yosei lançou o seu mais recente álbum lagrimento. Apesar de se tratar de uma continuação não muito distante das tramaras etéreas que pontuaram o antecessor luz, lançado em 2020, seria quase insultuoso reduzir o novo LP somente desse modo. A própria data de lançamento (coincidente com o Dia de Nossa Senhora de Fátima) e o título escolhido para o projeto (“lagrimento”, ou seja, lágrima + lamento) mostra a verdadeira cartada deste álbum: uma súplica existencialmente etérea para com a portugalidade católica; um jorramento por aqueles que amámos e nos deixaram, relembrando as coisas boas e más. Um justaposto do sentimento agridoce atenuado pela possibilidade de, quiçá, tais pessoas olharem e rogarem por nós como estrelas. Trata-se claramente de um projeto muito pessoal com uma grande carga emocional, mas uma carga que se transmite ao ouvinte devido à partilha da natureza humana, bem como a cultura religiosa que se manifesta em todo o conceito do álbum. De destacar, claro, os psicadelismos etereamente ritualescos na sonoridade do projeto, com ben yosei a conseguir criar um ponto de ligação entre um ambient minimalista de recorte new age e o culto religiosos de cariz devocional. João Pedro Antunes

4. MДQUIИД – DIRTY TRACKS FOR CLUBBING

Quem disse que a música de guitarra não tinha espaço numa danceteria? Foram uma das bandas mais trabalhadoras de 2023, fazendo dezenas de concertos de norte a sul do país, incluindo uma muito elogiada atuação no festival Vodafone Paredes de Coura. Mas nada disto seria possível se o disco de estreia dos MДQUIИД., DIRTY TRACKS FOR CLUBBING, não fosse uma das maiores surpresas do ano. O primeiro trabalho do conjunto de Lisboa é movido pelos imparáveis ritmos do krautrock, tingido por texturas psicadélicas e a pujança da eletrónica industrial. Este trabalho conquistou-nos pela capacidade que tem para nos fazer dançar (ou, se forem mais envergonhados, para, simplesmente bater o pé) enquanto preserva a crueza e agressividade do rock. Os MДQUIИД. são uma das bandas que devemos continuar a prestar atenção no futuro, até porque já há novo disco gravado na calha. Hugo Geada

3. Filipe Sambado – Três Anos de Escorpião em Touro

Nos últimos anos, Filipe Sambado tem sido um dos nomes mais falados na música portuguesa, conseguindo destacar-se com cada lançamento novo, sempre um passo à frente. Este ano trouxe-nos Três Anos de Escorpião em Touro, provando mais uma vez a sua relevância no panorama nacional com um punhado de canções maravilhosamente completo.

Sambado leva-nos numa viagem de aproximadamente 50 minutos por vários géneros e influências musicais que nos maravilham numa simbiose única e coerente. Pinta com todo o cuidado as paisagens sónicas que nos deslumbram, em contrastes de maximalismo e minimalismo — o refrão frenético de “Hybris”, recheado de camadas, é seguido por “Choro da Rouca”, uma das músicas mais despidas do disco, em modo acústico com voz, guitarra e um teclado solidário. A serpentear entre elementos hyperpop, fado, funk brasileiro, e aspetos que reconhecemos de discos anteriores da artista, Três Anos de Escorpião em Touro é um dos lançamentos mais interessantes e especiais de 2023. A sua experimentação calculada e divertida reflete a própria queerness de Sambado, numa expressão identitária musical, auxiliada na produção por Rodrigo Castaño e Bejaflor.

As apresentações ao vivo destas músicas têm sido igualmente deslumbrantes, não restando espaço para dúvidas sobre a capacidade de reinventação de Filipe Sambado. Afonso Mateus

2. Conferência Inferno – Pós-Esmeralda

Em Pós-Esmeralda, o segundo longa-duração dos Conferência Inferno, a receita não se altera, antes se apura. Os elementos que fizeram do antecessor Ata Saturna um dos melhores álbuns de 2021 estão cristalizados na fórmula vencedora do trio formado por Francisco Lima (voz), Raul Mendiratta (sintetizadores) e José Silva (teclados): melodias exíguas movidas pelo nervosismo da caixa de ritmos, desafios à repetição, pós-punk corroído pela apatia e o narcisismo. Um apelo à libertação liderado pela voz fleumática de Lima, que exalta nas suas inebriantes canções as noites passadas em ruas e caves do Porto que o trio hoje pode chamar de casa. Longe de se esgotar enquanto tributo, Pós-Esmeralda é muito mais do que um espelho dos seus antecessores, reenquadrando o racionalismo dos BAN, GNR e outros grupos que estiveram na dianteira da madrugada de 80 com os ganchos necessários para se fixarem no consciente coletivo durante muito tempo. Resistir ao teste do tempo não deverá ser um problema para estes rapazes.

1. Glockenwise – Gótico Português

No mais comovente dos interlúdios que pontuam Gótico Português, e quando questionada sobre as limitações do tempo para dar corpo à sua arte, Rosa Ramalho afirmava: “eu morro sem fazer.” Rosa é conterrânea dos Glockenwise e uma espécie de mentora espiritual do novo disco da banda, ceramista e escultora que nos deixou em 1977 mas cuja sabedoria e génio pairam sobre o novo álbum do grupo de Barcelos: ela provém do Portugal da “Margem”, a segunda faixa do disco que funciona como ode a um certo lugar mitológico, o da vida longe da corrida urbana onde ainda existe o tempo para “Lançar o isco à água / Esperar”; ela está na nossa versão do “American Gothic” de Grant Wood, na imagem de um país onde o sagrado e o profano, o belo e o bizarro, o novo e o velho convivem em harmonia e se informam e entrelaçam; ela está no outro tipo de gótico nostálgico deste disco, na linha de sintetizadores vinda directamente do pós-punk dos 80s (“Besta”) e nos refrões robertsmithianos de “Lodo”; e Rosa está também no pathos de shoegaze e distorção que é “Vida Vã”, em cada um dos seus acordes glaciais e num pungente estudo sobre a impermanência que culmina numa das grandes canções do rock nacional recente. Rosa e os Glockenwise poderão morrer sem fazer, mas já não morrem sem cantar. Luís Sobrado

Artwork: Filipe Costa

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